11.1.13

personalidade limítrofe

pouco a pouco
a rouquidão na
garganta avisa-me
de que o chão está
molhado no caminho
para o café. um
quarto
de hora de água
e de chão
de inverno.

10.1.13

Justerini & Brooks

no movie for us tonight. the taste of
liquor on the lips burns them. our lips
are wounded due to the cold and the
humidity. almost all great authors are
dead, now, only we remain, trying
our best not to be forgotten, drinking,
eating cheese, writing non stop bullshit.
this isn't the time for movies, it's getting
late in here. all great authors have been
dead for a long time, it's saddening.
our pain lies deeper than our ribs,
our heart, our lungs. closer to the
kidneys, actually, when they burn
after we drink too much, lips bleeding,
numb. what happened to us? there's
no answer to this question. it's thursday,
movies are opening in theatres all over,
but this is no night for movies, no
night for sad rendez-vous, we drag
ourselves through life, through nights
like this, we starve, there's no place for
us. our lips covered in scrapes. our
eyes are tired of air and humidity.

9.1.13

Mateus 18:22

S.

és uma flor frágil e selvagem
que tento guardar o melhor
que posso à vista de todos.
se tivesse nascido morto
não te podia dizer que te amo
e nem sequer sete vezes
mas setenta vezes sete.

dínamo

este sou eu. uma sombra de tabaco
pelos cantos, um miosótis espezinhado,
a escrever pequenos poemas
narcísicos
porque ninguém toma conta de mim
e a verdade é que nunca ninguém
tomou conta de mim nem nunca
ninguém vai tomar conta de mim
um bocado. eis-me, pois, com
livros e com amor à volta, tudo
a soltar-se dos poros, um vapor
de literatura amor egoísmo dor
por esta ou por outra ordem,
a pensar, a dormir, a sentir, a
viver numa sobrevivência
quotidiana. quando as pessoas
partem sem morrerem era mais
fácil que um de nós morresse e
sempre me pareceu mais fácil e
justo que essa pessoa fosse eu.

saudades de uma cafeteira de alumínio

as noites são
o pior. compostas
só de idas à
casa de banho,
viagens minúsculas
para urinar. as
noites nem deixam
que se descarregue
o autoclismo.
bebo água nas
noites e tapo-me com
os lençóis de flanela
mas o pior
são as noites.

8.1.13

bula

dizem que o amor aos trinta anos
é tardio. são aranhas, a partir dos
trinta anos, estão envelhecidos, até
um pouco mortos, inchados de
desilusão e de realidade. bebem
chás estranhos nos cafés. voltam
para casa. há sempre uma casa
para onde voltar. mas amar aos
trinta anos, dizem, sentir paixão
aos trinta anos de idade, é tardio.
vivem como crepúsculos perpétuos,
caso os crepúsculos fossem aborrecidos.

corta-relvas

espero que ainda haja tempo para um último cigarro,
antes do fim. que ainda dê para um último cigarro, ao
preço de agora, que já é alto o suficiente. espero que
ainda seja tempo para rever retratos, para nos sentarmos
na praia, ao fim da tarde. não se ouve ninguém na rua.
parece quase sempre tarde demais, mas no entanto
continuamos aqui para nada.

7.1.13

ortopedia

este poema devia ser uma fotografia, não
fora o facto de este poema já ser uma
fotografia, só que melhor. porque quem
olha para este poema pode ver todas
as fotografias que quiser ver e, desse
modo, este poema só não é uma fotografia
para quem não conseguir olhar para ele
e ver isso. não será culpa do poema,
porque, olhando bem, atrás das palavras
há imagens, dentro das palavras há imagens,
por isso este poema devia ser uma
fotografia e é.

o leite que profanámos coalhou

meu amor,
gostava de te
guardar
como uma serpente
que guardasse
um bicho de conta
ao sol
enrolados
um no outro
e em nós mesmos
tudo frio
mas o sol
no sangue
ou por fora
de um exoesqueleto
que nos proteja de todo
o mal do mundo
e dos outros.
e dar-te o meu
corpo sintonizado
com o mundo
real e pernas
que andem
braços que peguem
olhos que
vejam.
uma boca que fale
e que beije
com carinho
as omoplatas
as unhas
e unhas que nunca
morram
que aumentem
sob o solo
no fim.

breviário de teofanias

ficava sentado na sala do capítulo, sozinho,
com os ratos e os livros e com os ratos que
dentro de si já tinham livros, depois de tantos
dias a comer papel, lia os livros e os livros
só tinham morte lá dentro, pelo menos os
que importavam. eram muitos e cheios de morte
mas no entanto a morte nunca chegava, na
sala do capítulo, perdido no meio de corredores
e de um labirinto de outras salas com quadros
de paisagens e de rostos austeros que olhavam
por baixo das sobrancelhas pesadas com um
ar acusatório, do alto da sua beatitude. e
comia tinta e papel quando o pão não chegava,
havia muitos dias em que o pão ficava esquecido
e a água, o vinho, porque era complicado
chegar-se à sala do capítulo. lia poemas no
meio dos livros, mas eram poemas que falavam
baixinho de teorias e de lógicas esquisitas,
de flores secas, todos repletos de flores
amarelecidas, de gavetas fechadas à chave
e nenhuma chave que as abrisse. os poemas
nos livros eram como os livros, só moviam os
maxilares para dizer "morte", mas a morte não
vinha porque na vida há mais coisas que não
se metem nos poemas ou nos livros, e os poemas
ou os livros chegam e não chegam para que se
viva. mas os ratos não sabiam ler e por isso
viviam dos livros, e quando apareciam mortos
às vezes tinham pasta de papel mal digerida
a sair-lhes da boca.

28.12.12

o manidade

a televisão a desperdiçar-me
as noites, a saliva no braço do
sofá diz-me "sono" (grita-me
"SONO") mas a incapacidade
de fazer o que quer que seja
porque esta era é uma era de
anti-depressivos e de televisão
e de distância. as mãos lavadas
seis vezes com água quente
porque faz frio e porque prefiro
o cheiro do sabonete de
glicerina ao cheiro do tabaco -
nas mãos cansa o tabaco.
a televisão enfia-me anjos
electrónicos/eléctricos pelos
olhos dentro e o tabaco
enfia-me pregos de uma
morte minúscula nos pulmões
nas veias nas artérias na
electricidade do corpo para
que também eu me torne um
anjo mais próprio mais em
comunhão com as coisas certas.
seiscentos e sessenta e seis
litros de mim são amor.

27.12.12

gregoriano #1: calendário

onde estão os amigos que o telefone e as cartas
esconderam? os que se furtam à companhia e às
palavras, os que desaparecem para lá de uma
cortina pesada de mofo e de pó? a sua voz, um
ruído de antenas, de insectos, limpa-pára-brisas
velhos em pára-brisas ainda mais velhos. chega-se
à noite e os amigos falam de sob a água, com a
garganta inflamada de sangue e de memórias,
com os dentes sujos de cinza e de terra, com os
dedos a tocar em urzes e silvas secas. não se
percebe o que dizem, os candeeiros têm uma voz
melhor, mais capaz. os candeeiros passam por
cima das metáforas, iluminam, à noite, mas os
amigos desaparecem e não fazem nada, ouvem-se
e são cada vez mais ténues, mais distantes. os
amigos que desapareceram como formigas, dentro
de buracos no chão, para onde se dirigiram? para
longe, para um país mais próprio, onde toda a gente
caminha a olhar de cabeça erguida, como estátuas,
exemplos de cidadania, bichos amestrados que
se sabem comportar uns com os outros. os amigos
adoeceram de tanta saúde, de tanto propósito,
os telefones morrem, o papel para cartas desaparece
no meio da humidade da casa, dentro de caixas e
de gavetas. os amigos desapareceram todos
para o interior de igrejas em ruínas. os amigos
eram ruínas.

ra as

anseio pelos teus lábios de água e
ar porque o meu peito e a
minha cabeça são uma terra
infértil, um chão seco,
mas o teu corpo é uma seara.

ossa

(é mais fácil falar dos mortos
porque os mortos não respondem
ou quando o fazem só respondem
o que queremos que respondam.
é mais fácil falar dos mortos
para que quando os vivos morrem
possamos falar deles como se
sempre os tivéssemos acarinhado
e amado muito em vida.)

20.12.12

tarântula em formaldeído

desposa-me amanhã num ninho de mar e
de cabelo sujo. estiquemos o cabelo, à
luz, como um filme, estamos tão tarde,
nus, a árvore do conhecimento está
no meio, a piça está no meio
mas a cona está tapada por cabelo e,
dessa forma, é precisa luz. gosto de
olhos verdes como maçãs ácidas.

11.12.12

cujo mistério

tem as metáforas que quiseres ter, as imagens, os
frutos.
os dedos estão em baixo
e tocam.
(assim.)

5.12.12

hibisco

o poema assim pequeno porque o século
XXI tão rápido e imediato e convém
acompanhar os tempos - ultrapassar os
tempos - e porque assim o poema
minúsculo
pronto
próprio
a ser consumido no autocarro em menos
de cinco minutos. mas que rebente
de luz e de sombras e de mundo
nas costelas.

Adília:

Sinto falta de poesia
a meio do dia.

(engulo o ângulo
obtuso)

4.12.12

flores

"a tua poesia lembra-me a do Jorge de Sousa Braga",
diz a rapariga, no meio do baton, com os
auscultadores em intervalo e os olhos a ver
as coisas que escrevo. o Jorge de Sousa Braga tem,
no entanto, um desalento que me escapa,
o Jorge de Sousa Braga tem, no entanto,
no desalento que me escapa, a capacidade
de fabricar um carinho que me é alheio.
o Jorge de Sousa Braga é médico e poeta.
eu sou só.

3.12.12

hino

em homenagem à polissemia ergo um copo
a transbordar de nada - de ar, na verdade.
o poeta está no social e o social está no
poeta e, à falta de dinheiro, "o vil" coiso,
resta erguer taças de nada, brindar com
taças cheias de nada, de trabalhos de zero
horas semanais, dos programas televisivos
que nos empobrecem tanto mais que o
não-emprego. consumamos as cinzas do
que sobra, que é pouco. façamos a
psicanálise disto: a mãe, de pernas abertas,
na marquesa, à espera. os sonhos em
que garrafas são pilas e nunca só
garrafas porque só garrafas. as cinzas
ainda quentes porque, ao menos, o
amor.