22.5.13

"I just saw myself naked in the bathroom mirror and felt like donating to whatever my cause is"

a misoginia nos poemas nunca é apenas a misoginia
nos poemas. posso dizer que quero uma mulher para
foder e isso é redutor porque uma mulher tem de ser
para mais do que foder e a palavra foder é horrível
dizem-me. uma mulher é para amar mas se amamos
uma mulher ela é incapaz de nos amar de volta porque
aceitemos isto as mulheres são incapazes de amar ou
pelo menos de amar como os homens são capazes
de amar. nenhuma mulher se arrasta por amor nenhuma
mulher morre por amor mas de qualquer forma falo
de um certo tipo específico de amor. talvez devesse
dizer "quero que uma mulher me use e me foda" e assim
não seria misoginia - de qualquer forma já não o era à
partida porque a intenção quando escrevo "foder" é um
usar mútuo um carinho mútuo que sobre que ainda dê
para duas pessoas. duas pessoas que se queiram e que
se descartem. é mau pedir a uma mulher "foder" é misógino
mas também não é melhor pedir colo e mama e ternura
porque as mulheres são máquinas - os homens são
máquinas só que mais disfuncionais - e não servem para
mães. os homens dão melhores mães que as mulheres.
os homens a sério precisam de mulheres a sério que
os usem e que os deitem fora. quero dizer "deita-me
fora no fim de usar" mas que ao menos numa especificidade
de um momento qualquer haja um carinho uma
simpatia comum que nos encha a língua de ciência e
de mecânica e de astrofísica.

14.5.13

rinite alérgica

hei-de ser como meu pai com apenas
rebuçados nos bolsos. rebuçados e
memórias de outros lugares e toda
uma incapacidade de falar de verbalizar.
os dedos nos bolsos à volta com os
rebuçados já moles do calor e nenhuns
dentes com que os mastigar só gengivas
só bolsos e dedos e cuticulas feridas
e quando no verão os calções
urtigas atrás da torre velha da faculdade
com uma amiga ainda longe desse sítio
de rebuçados a pensar
devia-te ter beijado ou pelo menos
devia ter tentado mas nada
não aconteceu nada e por isso o caminho
implacável da vida até aos bolsos
com os rebuçados e os conselhos de
meu pai coitado quase sempre tão inúteis
quando deus fecha uma porta abre sempre
uma janela
como se a função das portas não fosse abrir e
fechar e abrir porque tem deus de dificultar as coisas?
porque nos mostram contra tudo o que somos
que só merecemos isto se aquilo? por isso
uma vida sozinho só com rebuçados moles
nos bolsos (são locais tão poéticos os bolsos
mesmo vazios - sobretudo se vazios - embora
estes com rebuçados e dedos e memórias de
meu pai) uma vida de onde os amigos se
retiraram pouco a pouco sem nobreza nenhuma
sem despedidas concretas só passos desaparecendo
em direcção a longe até que nem isso só
lembranças de um corpo num espaço agora cheio
de nada - como se bolsos onde nem sequer
nem tampouco
os rebuçados tão como os de meu pai
só para ele só para mim os rebuçados moles
e a partir de uma certa altura nem isso porque a
poesia leva-nos até os dentes.

6.5.13

ocelote

desapareceste no portão acenando a um novo
homem, que não eu, e viste-me conforme
atiraste o caroço da maçã que acabavas de
comer para o lixo. ainda há tantas perguntas
a que talvez devêssemos dar resposta.
se ao menos os meus braços em certas
alturas à volta dos teus quadris de
animal exuberante e mitológico.

5.5.13

cometera uma falcatrua

a discussão fútil e irrelevante sobre se
preferíamos Star Wars ou Star Trek foi
o que nos aguentou uma tarde naquele
comboio, entre a origem e o destino,
e ainda continuo sem poder responder,
só me lembro do Star Trek já sem
o Kirk e o Spock, apenas o Jean-Luc
Picard, mas, ainda assim, creio que
prefiro Star Trek. não me adianta, sequer,
responder-te a essa pergunta, aqui parados
e separados, já velhos e prontos a desistir
de todas as coisas iluminadas que valem
a pena, a preferir um centro de mesa
só com flores de plástico das mais
baratas, sem paciência para as pessoas na
rua e para o barulho dos cálices de
brandy e aguardente nos cafés. nenhum dia
será como esse e se nessa altura não
alcançámos a verdade relativa da ficção
científica, seguramente não será hoje, aqui,
dentro de uma tarde de maio, num intervalo,
enquanto bebo um café numa chávena da
lavazza, azul e branca, que te poderei dar
uma conclusão aproximada. ambos errámos em
segredo quando decidimos apaixonar-nos pelas
pessoas que magoam e que não querem saber,
e hoje somos nós os dois quem não quer
saber sequer se o Star Trek é melhor que o
Star Wars.

ouriço do mar

nunca no rescaldo de uma morte
tivémos de atravessar com um nó
na garganta um aperto no coração
um mar de sombras e conduzir
em silêncio para uma parte distante
do país ou do mundo.
nunca nos coube sofrer o suficiente
para merecermos tocar no limite
da poesia.

2.5.13

catarina

devia-te ter amado a boca em torno de um dia
que não acabasse, devia ter-te levado a concertos
noutro tempo, noutra época, e ter-te abrigado
da chuva com o meu casaco. devia ter estado
contigo em silêncio numa sala, rodeados de
móveis escuros e pesados e papel de parede
azul com motivos florais enquanto segurávamos
a mão um do outro com o medo próprio de
quem precisa que o outro não fuja, não morra,
não desapareça repentinamente. devia ter esperado
cinco ou seis meses numa sala, segurando a tua mão,
enquanto nos preparavam uma fotografia, enquanto
construíssem uma fotografia de onde nunca nos
morressem as cores, as veias, a paixão e o carinho.
de perfil, devia-te ter despido e beijado as coxas,
lentamente, devia-me ter alimentado de ti e de
chamar orquídea ao teu sexo, devia ter chamado
cona ao teu sexo e bebê-lo conforme se abrisse
semelhante a uma orquídea, devias ter amado a minha
boca com uma orquídea quente em torno de
um dia que não acabasse, devíamos ter sido
felizes noutra época, noutro tempo, a sair dos
concertos e tu com frio, fugindo da chuva, para que
despisse o meu casaco e to colocasse sobre os
ombros. devíamos ter tido uma casa com uma
despensa onde existissem cestos de vime com
espinhas de peixe e escamas lá dentro, devíamos
ter ferido as costas e as pernas um ao outro
com espinhas de peixe, com ossos de pássaros
mortos, devíamos ter sonhado que dançávamos
com pessoas antigas, passadas, numa sala com
móveis sombrios atrás e papel de parede e cortinas
pesadas e escuras. devia ter amado a tua boca com
a minha boca com as minhas mãos ao redor de um
dia que não acabasse nunca, onde as palavras
chegassem e onde as pessoas jogassem às cartas
em silêncio, devagar, caindo do tecto em direcção ao
chão como penas de pássaros mortos, flutuantes,
com sorrisos de pó e de nada e olhos guardados
em armários escuros. devia ter-te levado a uma
estação de caminho-de-ferro e ter esperado cinco,
seis meses que nos fotografassem, que nos etiquetassem
e que nos arquivassem como numa memória naquele
filme que vimos durante uma matinée de quinta-feira -
em itálico sempre porque um estrangeirismo erudito um
francesismo -, que nos levassem para longe em bolsos,
em barcos a vapor que naufragassem a meio do oceano
para podermos viver eternamente num sítio azul escuro
onde devem pertencer as memórias aquáticas.
devia ter-te oferecido maçãs encarnadas, devia ter-te
pedido um beijo em contra-luz, à noite, perto dos
candeeiros e do quiosque octogonal já fechado, devia
ter-te dado flores. devíamos ter sido como unhas ou
cabelos, vivos depois de morrermos, mesmo que sejam
as únicas coisas mortas, de nós, quando vivemos.

as bicicletas no parque

"o que é que há de especial no blues?"
há uma angústia uma solidão uma dor
uma pobreza um amor doente um par
de lábios a desesperar por um dedo de
tabaco
disfarçados de deserto à noite quando
os bares abrem as portas e as bebidas
são mais quentes que os vidros que
os copos que os dias

mas só aqui postos em meio de dois mil e
treze no vento insuportável do litoral
oeste de portugal é compreensível que não
percebamos nada disso.

mamarracho

vi uma criança comendo folhas e
bichos, chorando,
alguns homens procuraram
nela qualidades de
misticismo, verdades escondidas,
uma sapiência ancestral,
o conhecimento das ondas
electromagnéticas,
do espectro ultra-violeta.
comia folhas e bichos,
chorava,
nunca tinha visto o
King Kong original no
cinema.

21.4.13

espirro

foi chão que já deu uvas
outrora
mas neste momento
dá uma cal muito branca
dá dentes e azia
e em nenhuma
loja
nos vendem um coração
mais capaz
ainda por estrear
com imensas vinhas
que dêem uvas
tintas e vinho
e palavras.

ectoplasma

no Barreiro podia-se fumar em quase todos
os cafés mas quando passaste lá uma noite
comigo ficámos só em frente ao rio a abrir
e a fechar as janelas do carro por causa da
condensação e jogámos jogos deveras
ridículos mas não queríamos saber

à noite nas canas de pesca umas luzes
verdes no escuro

fumámos no carro não foram precisos
bares nem cafés só os nossos dedos
relativamente ágeis na verdade do
tabaco - agora não temos quem nos
leve para lado nenhum e nenhuma margem
onde os homens pesquem à noite

não guardas nada daquilo que te dei
mas trago silenciosamente tudo o que
tocámos tudo o que queimámos durante
o verão.

15.4.13

quem parte e reparte

ninguém que cante, com uma voz válida,
atrás dos homens que ouvem.
ninguém que plante uma flor de nervos
de música estragada.
as melhores mãos eram aquelas cujos
dedos, alcalinos, magoavam, empurravam
contra o vidro.
ninguém que escreva a dor de quem
leia, nenhuma aula de simpatia no
meio do cheiro a mijo de gato.
ninguém onde a noite, nenhum
arquitecto que proponha uma forma
de construir casas próprias para o
corpo humano.
apenas o tabaco ininterrupto e os
pulmões convulsos onde ninguém mexe.
só pássaros, atrás dos homens que ouvem.

queratina

podias ter-me matado - as mãos lenta mas
peremptoriamente envolvendo o
pescoço. devias ter-me matado
quando fodíamos. podia ter morrido,
quatro lágrimas brancas de leite à
saída da piça, meu amor. morrer quando
podia. quando devia.

10.4.13

carneiro

sou má rês
má coisa
res, rei

sou mau
mauzinho
mesquinho
corrosivo
orgulhoso

mas sei
lamber
tão bem.

8.4.13

sandra

os teus poemas eram tão tristes e
os melhores poemas são os poemas tristes e
confesso que tantos anos depois
estou a ler os teus poemas antigos
e tenho vontade de chorar
de tanta beleza de tanta angústia
de ter sido tanto para tanta gente
que não soube vê-lo e a ti que o
viste
só dei a intensidade de ervas secas
e és a única pessoa a quem realmente
me dói ter contribuido para que os
poemas antigos
sejam tão tristes.

3.4.13

noventa

preciso de uma mulher a sério,
uma mulher para quem olhe e
saiba que é uma mulher a sério,
que queira um homem a sério,
um homem para quem olhe e
saiba que é um homem a sério.

moagem

os passos para longe
onde cavalos de osso
corram pelo púrpura
aveludado das cidades
destruídas e abandonadas

sem homens sem mulheres
sem gatos
para longe onde os poemas
nunca digam dentro de si
a palavra pele a palavra
deserto a palavra areia

só velhos porque os
velhos são antigos
homens antigas mulheres
que nunca chegam a
cumprir o seu desígnio
de homens de mulheres

e flores sob os cascos
e por motivos estéticos
dentro do sítio onde
tinham estado
os olhos.

29.3.13

rosto

é tão triste que numa semana todo o trabalho
toda a sobrevivência todos os planos
os amigos as vozes
tudo como madressilvas em gavetas abandonadas
de repente
e o céu da boca vítreo quando a masturbação
ter de pensar
tu
quando a masturbação que asco meu amor
ainda que asco que sobra de asco nenhuma
mulher és tu mais meu amor e quando a masturbação
tu
e isso entristece como entristece que numa
semana apenas todo o trabalho o labor de
sobreviver a ti deitado por água abaixo
pela pia abaixo e tu
tu
nunca vais ler isto porque ler é uma coisa
que se faz quando nos obrigam a estudar
agora somos adultos e crescidos inúteis
vazios portanto e não posso não devo sequer
mandar-te à puta que te pariu guardar-te
num saco de plástico com cascas de laranja
e pôr-te no lixo onde era suposto que estivesses
a barriga estúpida no prazo de uma semana
por causa do excesso de fritos e de desespero
já nada por que viver e com a barriga ainda
menos porque o meu valor meu amor é nulo
e nem deus me segura a mão no escuro porque
nem em deus acredito já só no amor
seja lá o que isso for acredito no amor
ainda que o amor esteja fechado muito longe
de mim e o veja da forma mais absurda e
imbecil de sempre como a barriga a impedir
porque a barriga tem impedido tanto no passado
que se apaixonem por mim mas mais que a barriga
o resto o invisível ainda que me arrependa ainda
que mude ainda que me torne
cada vez mais mulher que tu.

27.3.13

ralador de queijo

as palavras
os fonemas
os grafemas
que disse
que guardei
tinham
têm
em cada um
mais espaço
imagético
semântico
pragmático
que todas
as fotografias
que tiraste
e se a minha vida
são palavras
a minha vida
é melhor
maior
tem mais
espaço para
as coisas que
interessam
ainda que as
coisas que
interessam
tantas vezes
sejam as coisas
comuns
as coisas
vulgares
ordinárias
(nota que
quando as digo
isto é
quando as
ponho em
palavras
e as ordeno
e faço
aqui
uma quebra
de verso
a luz inominável
que se solta
delas
mais do que se
as aprisionasse
para sempre
numa das
tuas fotografias)
tenho os olhos
a rebentar
do ordinário
e é maravilhoso
mas em baixo
também
na boca
e nas mãos

doença em Santiago

"quero trair-te amanhã. convidar um destes homens
que passam na rua, recebê-lo em casa, deixá-lo
chamar-me de puta, de cabra, de vaca. olha, pedir,
mesmo, pedir que me chame nomes, que me foda
o cu, que me bata com força nas costas, nas
pernas, nas nádegas. estou cansada de ti, de
nós, de conversas e de cafés. de ter de tomar conta
de ti e de mim ao mesmo tempo. nesta cidade
estranha há-de haver um homem que me queira.
um homem a sério, não uma coisa como tu,
querido. amanhã vou trair-te quando saires para
ir ver museus, tomar cafés, apaixonares-te
pelas mulheres iguais a mim nos cafés. e não
te hás-de importar que te traia, não hás-de
querer saber, mas agora sabes. sabes que odeio
as tuas fodas lentas e carinhosas, a tua
meia-hora de minetes, a tua ineptidão física
quando me puxas o cabelo com os braços,
às vezes a incapacidade ridícula de pores a
pila na cona à primeira, odeio o teu olhar
de encanto, como se estivesses sempre a ver
o meu corpo pela primeira vez, o cigarro
irritante a brilhar no escuro, a descer pelo escuro
sempre que acabamos
de foder. não estou mais para isto, meu amor,
mereço melhor, mereço um homem, amanhã vou-te
trair e até gostava que levasses a mal, mas
sei que não queres saber, porque nunca falamos
de culpa mas a culpa, em ti, há-de ser sempre
minha."

3.3.13

cães

os miúdos têm dinheiro para câmaras
fotográficas aparentemente caras,
para óculos inúteis, sem graduação,
só emblemas de estilo perante os
outros. eu tenho trinta anos e
gosto dos cães velhos à beira da estrada,
à espera de coisa nenhuma,
enquanto lambem os colhões.