"o suor são micro-transacções?" olha: despiste o
soutien e não era esta a altura certa. seguras um
sabonete, fazes perguntas. a nossa pele tem o
odor desagrável das sardinhas assadas. "faz
hoje um ano". recapitulemos: não tenho nenhuma
irmã que me espere sob a ombreira da porta, na
casa desabitada onde as vespas fazem ninhos
nos caixilhos podres das janelas; nem sequer uma
figura com as mãos e os pés estigmatizados,
sentada à cabeceira da mesa, de pernas cruzadas,
enquanto reacende a teimosia de um cigarro
com um fósforo húmido. o suor são micro-
-transacções? eu sei lá o que seja o suor, sei
lá que metáfora pretendes usar, quando dizes
isso. afugentamos as pulgas do colchão com
a pressa de foder. faz hoje um ano. devíamos
era sentar-nos na borda do chão e chorar por
todos os familiares que nos estão a morrer de
cancro e de porcarias interiores. mas domina-
-nos a pressa obsessiva de foder e fumar, a pressa
de não saber, não possuir o requisito mínimo de
paciência para saber responder o que porra seja
o suor. suamos quando fodemos, foder é uma
micro-transacção que, de vez em quando, é muito
luminosa. mas outras vezes não.
14.6.13
13.6.13
um beijo electrónico entre tesla e edison
mandíbula que aperte o casquilho na manhã, que
atire de modo violento o tremor da paixão
contra a incandescência dos napperons, esses adereços
antigos e obsoletos cuja única função é a de
provocarem sorrisos condescendentes nas bocas das
gerações mais novas. um osso que fossilize
e guarde a ciência e a filosofia num segredo
que escorra pelo tempo como cera; e que solidifique
- a cera e o osso -
de uma maneira triste, a morrer sem sangue nem
feridas no fundo da corrente alternada.
mandíbula poética que nas mãos segure o casquilho
e o arremesse ao que se come, àquilo com
que se guarnece o estômago e as tripas. e
um prédio que se construa mas que, assim que
terminado, surja envelhecido e deixado ao abandono,
morada para pessoas à beira da morte, ossos,
instalações eléctricas que na noite desistam, respirem
convulsivamente na humidade e interrompam a
sintaxe da casa com o seu choro. janelas onde
mandíbulas rasgando ao longo dos vidros, com
tantas saudades dos campos de trigo com o
céu em cima repleto de corvos e, num
espaço, ao meio, de garças, em conjunto a
desenhar um homem cansado de todo o
chão petrificado. bocas que beijem bocas de
crianças sentadas ao colo, "velho porco", dedos
que como enguias de um mito poético perdido
procurem a carne viva sob a roupa interior.
atire de modo violento o tremor da paixão
contra a incandescência dos napperons, esses adereços
antigos e obsoletos cuja única função é a de
provocarem sorrisos condescendentes nas bocas das
gerações mais novas. um osso que fossilize
e guarde a ciência e a filosofia num segredo
que escorra pelo tempo como cera; e que solidifique
- a cera e o osso -
de uma maneira triste, a morrer sem sangue nem
feridas no fundo da corrente alternada.
mandíbula poética que nas mãos segure o casquilho
e o arremesse ao que se come, àquilo com
que se guarnece o estômago e as tripas. e
um prédio que se construa mas que, assim que
terminado, surja envelhecido e deixado ao abandono,
morada para pessoas à beira da morte, ossos,
instalações eléctricas que na noite desistam, respirem
convulsivamente na humidade e interrompam a
sintaxe da casa com o seu choro. janelas onde
mandíbulas rasgando ao longo dos vidros, com
tantas saudades dos campos de trigo com o
céu em cima repleto de corvos e, num
espaço, ao meio, de garças, em conjunto a
desenhar um homem cansado de todo o
chão petrificado. bocas que beijem bocas de
crianças sentadas ao colo, "velho porco", dedos
que como enguias de um mito poético perdido
procurem a carne viva sob a roupa interior.
umas meias rotas
- não tenhas vergonha de escrever poesia nos cafés, com toda
a gente a olhar como se alguma coisa estivesse errada
contigo. a poesia é isto, assim, e faz falta aos meus
ouvidos, sinto falta de te ouvir entre a luz e as sombras
do sol esgueirando-se pelos estores mal fechados (estragados)
deste quarto, quando acordas antes de mim.
a poesia é para miúdos, não é um trabalho
para velhos, a menos que se seja um autor reconhecido.
a gente a olhar como se alguma coisa estivesse errada
contigo. a poesia é isto, assim, e faz falta aos meus
ouvidos, sinto falta de te ouvir entre a luz e as sombras
do sol esgueirando-se pelos estores mal fechados (estragados)
deste quarto, quando acordas antes de mim.
a poesia é para miúdos, não é um trabalho
para velhos, a menos que se seja um autor reconhecido.
azulejo
na casa que a minha madrinha aluga
a estudantes da escola de artes e
design (&) fiquei a fumar cigarros
que tirei dos cinzeiros, deixados
pelas raparigas que ali moravam,
depois de ir à manifestação anti-tourada.
o meu corpo era só aquilo, à varanda,
no bairro azul, por cima da pizzaria,
no fim de te teres ido embora.
a televisão só tinha quatro canais
e em nenhum estava a dar nada
de interesse. telenovelas, sobretudo.
faz quase um ano e tinhas-te ido
embora no autocarro e ligavas-me,
nessa altura ouvia ainda a tua voz
ao telefone, o meu corpo com a tua
voz não era só aquilo, por cima da
pizzaria, com uma almofada dentro
de um saco de plástico, à espera
que me fossem buscar. podia ter
amado uma das mulheres que
estavam na manifestação. podia
ter-te esquecido logo nessa noite
e parece-nos tão certo, agora, que
isso teria sido o mais sensato
a fazer.
a estudantes da escola de artes e
design (&) fiquei a fumar cigarros
que tirei dos cinzeiros, deixados
pelas raparigas que ali moravam,
depois de ir à manifestação anti-tourada.
o meu corpo era só aquilo, à varanda,
no bairro azul, por cima da pizzaria,
no fim de te teres ido embora.
a televisão só tinha quatro canais
e em nenhum estava a dar nada
de interesse. telenovelas, sobretudo.
faz quase um ano e tinhas-te ido
embora no autocarro e ligavas-me,
nessa altura ouvia ainda a tua voz
ao telefone, o meu corpo com a tua
voz não era só aquilo, por cima da
pizzaria, com uma almofada dentro
de um saco de plástico, à espera
que me fossem buscar. podia ter
amado uma das mulheres que
estavam na manifestação. podia
ter-te esquecido logo nessa noite
e parece-nos tão certo, agora, que
isso teria sido o mais sensato
a fazer.
doméstica #1
quando regresso a casa
às duas da manhã
no degredo interior
de ter de viver
na província
quando a culpa disso
(que animal fugidio
a culpa) é minha
sei que posso
pegar na minha gata
e colocá-la em cima
da mesa com uma
única fatia de fiambre
e apagar a luz da cozinha
imaginar no quarto as
pupilas da minha gata
no escuro
enormes como faróis
de um barco de dentes.
às duas da manhã
no degredo interior
de ter de viver
na província
quando a culpa disso
(que animal fugidio
a culpa) é minha
sei que posso
pegar na minha gata
e colocá-la em cima
da mesa com uma
única fatia de fiambre
e apagar a luz da cozinha
imaginar no quarto as
pupilas da minha gata
no escuro
enormes como faróis
de um barco de dentes.
5.6.13
quadrado perfeito
respira o que te parecer serem vinte anos
ininterruptamente
20vinte20
sem parar vinte anos
de respiração
(she was pregnant again and she was going
to name the baby 'Alguidar', after her
grandfather)
deixa que os mortos enterrem
os seus mortos e repara apenas
no arco
tão concreto
quando se dispara
um míssil.
ininterruptamente
20vinte20
sem parar vinte anos
de respiração
(she was pregnant again and she was going
to name the baby 'Alguidar', after her
grandfather)
deixa que os mortos enterrem
os seus mortos e repara apenas
no arco
tão concreto
quando se dispara
um míssil.
turno da tarde
tenho a vergonha de um neófito pela primeira
vez diante de uma mulher nua. tenho o medo
da poesia pós-moderna a apertar-me o esófago.
tenho uma vertigem de luzes na parede do
quarto e lâmpadas acesas no tecto. como uma
criança pela primeira vez defronte de uma mulher
nua sentada na borda da cama. olho para as
mãos e não sei o que fazer com elas.
tenho um cigarro apagado nos lábios. dependurado.
uma piça.
tenho uma piça e com o medo de quem
vê uma mulher nua pela primeira vez
não sei o que fazer com ela e com as
mãos. tenho a poesia pós-moderna a estorvar
no esófago e no sangue que me endurece
a piça.
vez diante de uma mulher nua. tenho o medo
da poesia pós-moderna a apertar-me o esófago.
tenho uma vertigem de luzes na parede do
quarto e lâmpadas acesas no tecto. como uma
criança pela primeira vez defronte de uma mulher
nua sentada na borda da cama. olho para as
mãos e não sei o que fazer com elas.
tenho um cigarro apagado nos lábios. dependurado.
uma piça.
tenho uma piça e com o medo de quem
vê uma mulher nua pela primeira vez
não sei o que fazer com ela e com as
mãos. tenho a poesia pós-moderna a estorvar
no esófago e no sangue que me endurece
a piça.
escritório
não vou ver a tua exposição de fotografia
porque não acredito em fotografia
não acredito em psicologia
não acredito no Freud.
creio no vinho tinto e n'O Capote
de Gogol.
porque não acredito em fotografia
não acredito em psicologia
não acredito no Freud.
creio no vinho tinto e n'O Capote
de Gogol.
croft em cálice morno
à uma da tarde começam os comboios para
são martinho do porto onde mora um amigo
ainda em 1967. em junho de mil novecentos e
sessenta e sete o calor da uma da tarde (treze
horas) incomoda as senhoras que esperam de
pé pelo comboio e se vão abanando com
jornais e chapéus e leques e uma pergunta-me
"não tem calor?" e outra afirma que está tanto
calor. o meu amigo tem os óculos na ponta do
nariz em são martinho do porto sentado à janela
de sua casa a ler Hemingway. a ler um livro do
Hemingway que ele escreveu quando tinha só
bigode ainda não a barba completa. em 1967
em são martinho do porto o Hemingway já tinha
morrido há seis anos. o meu amigo não tinha barba
e fumava muito. nessa altura falava-se pouco do
cancro dos pulmões e mesmo que se falasse
muito do cancro dos pulmões o meu amigo
não quereria saber porque ao menos quando fumava
não chorava ao menos quando fumava não
lhe fugia a cabeça para coisas e sentimentos
tristes. porque a cabeça das pessoas fugia muito
para coisas tristes à uma da tarde em são martinho
do porto em mil novecentos e sessenta e sete.
o Hemingway matou-se em julho de 1961. eu e o
meu amigo em são martinho do porto às três e
quinze da tarde ainda estamos vivos e a comer
pastéis de nata enquanto bebemos café em frente
à praia. quanto ao futuro. quanto ao futuro. que
se foda. hoje não se fala de cancro dos pulmões.
são martinho do porto onde mora um amigo
ainda em 1967. em junho de mil novecentos e
sessenta e sete o calor da uma da tarde (treze
horas) incomoda as senhoras que esperam de
pé pelo comboio e se vão abanando com
jornais e chapéus e leques e uma pergunta-me
"não tem calor?" e outra afirma que está tanto
calor. o meu amigo tem os óculos na ponta do
nariz em são martinho do porto sentado à janela
de sua casa a ler Hemingway. a ler um livro do
Hemingway que ele escreveu quando tinha só
bigode ainda não a barba completa. em 1967
em são martinho do porto o Hemingway já tinha
morrido há seis anos. o meu amigo não tinha barba
e fumava muito. nessa altura falava-se pouco do
cancro dos pulmões e mesmo que se falasse
muito do cancro dos pulmões o meu amigo
não quereria saber porque ao menos quando fumava
não chorava ao menos quando fumava não
lhe fugia a cabeça para coisas e sentimentos
tristes. porque a cabeça das pessoas fugia muito
para coisas tristes à uma da tarde em são martinho
do porto em mil novecentos e sessenta e sete.
o Hemingway matou-se em julho de 1961. eu e o
meu amigo em são martinho do porto às três e
quinze da tarde ainda estamos vivos e a comer
pastéis de nata enquanto bebemos café em frente
à praia. quanto ao futuro. quanto ao futuro. que
se foda. hoje não se fala de cancro dos pulmões.
4.6.13
whisky primavera
esta coisa fica ligada mas eu
vou dormir. devia dormir. em 1967
a ser uma máquina que dorme.
vou dormir. devia dormir. em 1967
a ser uma máquina que dorme.
23.5.13
ardor
chegar aos trinta anos e só
me restarem argumentos destes,
não sou bonito mas há pior e nem
sequer é uma piada embora soe como
tal; ou seja, é uma piada, é uma piada
tragicómica, é uma piada como
a vida das pessoas.
esgotou-se-me a poesia toda.
me restarem argumentos destes,
não sou bonito mas há pior e nem
sequer é uma piada embora soe como
tal; ou seja, é uma piada, é uma piada
tragicómica, é uma piada como
a vida das pessoas.
esgotou-se-me a poesia toda.
micro-infantilidades
espero que um
dia,
quando chegar aqui,
nenhum poema
que se leia
imediatamente
seja teu.
("teu")
dia,
quando chegar aqui,
nenhum poema
que se leia
imediatamente
seja teu.
("teu")
22.5.13
la mort de l'auteur
não sei porque espero ainda
(talvez seja da altura do ano
e de ver nisto uma efeméride)
que surjas de novo quando
me sento sozinho ao sol junto
ao muro com as marias-café
e os bichos-de-conta - tudo
animais que se enrolam em si
mesmos - que caminhes ao de
leve sobre a relva com os pés
descalços e abras a boca na
minha direcção que me atires
a tua voz na minha direcção
(julgo não me lembrar sequer
da tua voz) e que me dês
frutos vivos de mãos de unhas
e que dobres as costas no
fim do meu cigarro do meu
desespero cancerígeno. e
ainda espero mesmo que saiba
mesmo que tenha toda a
certeza de que devia ter só
guardado as tuas fotografias
envolvendo os ossos e a
proteger-me da sombra longínqua
que os amigos deixam contra
o corpo. "a vida é assim" ou "a
vida é isto" e deve-se continuar -
o corpo continua sozinho sem
notar que continua sozinho é
como um planeta que funciona
porque funciona e mais nada. e
um pouco de mim está neste poema
e sei que me terias dito quando
era tempo de mo dizeres que
devia ser sempre assim em tudo
o que escrevo.
(talvez seja da altura do ano
e de ver nisto uma efeméride)
que surjas de novo quando
me sento sozinho ao sol junto
ao muro com as marias-café
e os bichos-de-conta - tudo
animais que se enrolam em si
mesmos - que caminhes ao de
leve sobre a relva com os pés
descalços e abras a boca na
minha direcção que me atires
a tua voz na minha direcção
(julgo não me lembrar sequer
da tua voz) e que me dês
frutos vivos de mãos de unhas
e que dobres as costas no
fim do meu cigarro do meu
desespero cancerígeno. e
ainda espero mesmo que saiba
mesmo que tenha toda a
certeza de que devia ter só
guardado as tuas fotografias
envolvendo os ossos e a
proteger-me da sombra longínqua
que os amigos deixam contra
o corpo. "a vida é assim" ou "a
vida é isto" e deve-se continuar -
o corpo continua sozinho sem
notar que continua sozinho é
como um planeta que funciona
porque funciona e mais nada. e
um pouco de mim está neste poema
e sei que me terias dito quando
era tempo de mo dizeres que
devia ser sempre assim em tudo
o que escrevo.
"I just saw myself naked in the bathroom mirror and felt like donating to whatever my cause is"
a misoginia nos poemas nunca é apenas a misoginia
nos poemas. posso dizer que quero uma mulher para
foder e isso é redutor porque uma mulher tem de ser
para mais do que foder e a palavra foder é horrível
dizem-me. uma mulher é para amar mas se amamos
uma mulher ela é incapaz de nos amar de volta porque
aceitemos isto as mulheres são incapazes de amar ou
pelo menos de amar como os homens são capazes
de amar. nenhuma mulher se arrasta por amor nenhuma
mulher morre por amor mas de qualquer forma falo
de um certo tipo específico de amor. talvez devesse
dizer "quero que uma mulher me use e me foda" e assim
não seria misoginia - de qualquer forma já não o era à
partida porque a intenção quando escrevo "foder" é um
usar mútuo um carinho mútuo que sobre que ainda dê
para duas pessoas. duas pessoas que se queiram e que
se descartem. é mau pedir a uma mulher "foder" é misógino
mas também não é melhor pedir colo e mama e ternura
porque as mulheres são máquinas - os homens são
máquinas só que mais disfuncionais - e não servem para
mães. os homens dão melhores mães que as mulheres.
os homens a sério precisam de mulheres a sério que
os usem e que os deitem fora. quero dizer "deita-me
fora no fim de usar" mas que ao menos numa especificidade
de um momento qualquer haja um carinho uma
simpatia comum que nos encha a língua de ciência e
de mecânica e de astrofísica.
nos poemas. posso dizer que quero uma mulher para
foder e isso é redutor porque uma mulher tem de ser
para mais do que foder e a palavra foder é horrível
dizem-me. uma mulher é para amar mas se amamos
uma mulher ela é incapaz de nos amar de volta porque
aceitemos isto as mulheres são incapazes de amar ou
pelo menos de amar como os homens são capazes
de amar. nenhuma mulher se arrasta por amor nenhuma
mulher morre por amor mas de qualquer forma falo
de um certo tipo específico de amor. talvez devesse
dizer "quero que uma mulher me use e me foda" e assim
não seria misoginia - de qualquer forma já não o era à
partida porque a intenção quando escrevo "foder" é um
usar mútuo um carinho mútuo que sobre que ainda dê
para duas pessoas. duas pessoas que se queiram e que
se descartem. é mau pedir a uma mulher "foder" é misógino
mas também não é melhor pedir colo e mama e ternura
porque as mulheres são máquinas - os homens são
máquinas só que mais disfuncionais - e não servem para
mães. os homens dão melhores mães que as mulheres.
os homens a sério precisam de mulheres a sério que
os usem e que os deitem fora. quero dizer "deita-me
fora no fim de usar" mas que ao menos numa especificidade
de um momento qualquer haja um carinho uma
simpatia comum que nos encha a língua de ciência e
de mecânica e de astrofísica.
14.5.13
rinite alérgica
hei-de ser como meu pai com apenas
rebuçados nos bolsos. rebuçados e
memórias de outros lugares e toda
uma incapacidade de falar de verbalizar.
os dedos nos bolsos à volta com os
rebuçados já moles do calor e nenhuns
dentes com que os mastigar só gengivas
só bolsos e dedos e cuticulas feridas
e quando no verão os calções
urtigas atrás da torre velha da faculdade
com uma amiga ainda longe desse sítio
de rebuçados a pensar
devia-te ter beijado ou pelo menos
devia ter tentado mas nada
não aconteceu nada e por isso o caminho
implacável da vida até aos bolsos
com os rebuçados e os conselhos de
meu pai coitado quase sempre tão inúteis
quando deus fecha uma porta abre sempre
uma janela
como se a função das portas não fosse abrir e
fechar e abrir porque tem deus de dificultar as coisas?
porque nos mostram contra tudo o que somos
que só merecemos isto se aquilo? por isso
uma vida sozinho só com rebuçados moles
nos bolsos (são locais tão poéticos os bolsos
mesmo vazios - sobretudo se vazios - embora
estes com rebuçados e dedos e memórias de
meu pai) uma vida de onde os amigos se
retiraram pouco a pouco sem nobreza nenhuma
sem despedidas concretas só passos desaparecendo
em direcção a longe até que nem isso só
lembranças de um corpo num espaço agora cheio
de nada - como se bolsos onde nem sequer
nem tampouco
os rebuçados tão como os de meu pai
só para ele só para mim os rebuçados moles
e a partir de uma certa altura nem isso porque a
poesia leva-nos até os dentes.
rebuçados nos bolsos. rebuçados e
memórias de outros lugares e toda
uma incapacidade de falar de verbalizar.
os dedos nos bolsos à volta com os
rebuçados já moles do calor e nenhuns
dentes com que os mastigar só gengivas
só bolsos e dedos e cuticulas feridas
e quando no verão os calções
urtigas atrás da torre velha da faculdade
com uma amiga ainda longe desse sítio
de rebuçados a pensar
devia-te ter beijado ou pelo menos
devia ter tentado mas nada
não aconteceu nada e por isso o caminho
implacável da vida até aos bolsos
com os rebuçados e os conselhos de
meu pai coitado quase sempre tão inúteis
quando deus fecha uma porta abre sempre
uma janela
como se a função das portas não fosse abrir e
fechar e abrir porque tem deus de dificultar as coisas?
porque nos mostram contra tudo o que somos
que só merecemos isto se aquilo? por isso
uma vida sozinho só com rebuçados moles
nos bolsos (são locais tão poéticos os bolsos
mesmo vazios - sobretudo se vazios - embora
estes com rebuçados e dedos e memórias de
meu pai) uma vida de onde os amigos se
retiraram pouco a pouco sem nobreza nenhuma
sem despedidas concretas só passos desaparecendo
em direcção a longe até que nem isso só
lembranças de um corpo num espaço agora cheio
de nada - como se bolsos onde nem sequer
nem tampouco
os rebuçados tão como os de meu pai
só para ele só para mim os rebuçados moles
e a partir de uma certa altura nem isso porque a
poesia leva-nos até os dentes.
6.5.13
ocelote
desapareceste no portão acenando a um novo
homem, que não eu, e viste-me conforme
atiraste o caroço da maçã que acabavas de
comer para o lixo. ainda há tantas perguntas
a que talvez devêssemos dar resposta.
se ao menos os meus braços em certas
alturas à volta dos teus quadris de
animal exuberante e mitológico.
homem, que não eu, e viste-me conforme
atiraste o caroço da maçã que acabavas de
comer para o lixo. ainda há tantas perguntas
a que talvez devêssemos dar resposta.
se ao menos os meus braços em certas
alturas à volta dos teus quadris de
animal exuberante e mitológico.
5.5.13
cometera uma falcatrua
a discussão fútil e irrelevante sobre se
preferíamos Star Wars ou Star Trek foi
o que nos aguentou uma tarde naquele
comboio, entre a origem e o destino,
e ainda continuo sem poder responder,
só me lembro do Star Trek já sem
o Kirk e o Spock, apenas o Jean-Luc
Picard, mas, ainda assim, creio que
prefiro Star Trek. não me adianta, sequer,
responder-te a essa pergunta, aqui parados
e separados, já velhos e prontos a desistir
de todas as coisas iluminadas que valem
a pena, a preferir um centro de mesa
só com flores de plástico das mais
baratas, sem paciência para as pessoas na
rua e para o barulho dos cálices de
brandy e aguardente nos cafés. nenhum dia
será como esse e se nessa altura não
alcançámos a verdade relativa da ficção
científica, seguramente não será hoje, aqui,
dentro de uma tarde de maio, num intervalo,
enquanto bebo um café numa chávena da
lavazza, azul e branca, que te poderei dar
uma conclusão aproximada. ambos errámos em
segredo quando decidimos apaixonar-nos pelas
pessoas que magoam e que não querem saber,
e hoje somos nós os dois quem não quer
saber sequer se o Star Trek é melhor que o
Star Wars.
preferíamos Star Wars ou Star Trek foi
o que nos aguentou uma tarde naquele
comboio, entre a origem e o destino,
e ainda continuo sem poder responder,
só me lembro do Star Trek já sem
o Kirk e o Spock, apenas o Jean-Luc
Picard, mas, ainda assim, creio que
prefiro Star Trek. não me adianta, sequer,
responder-te a essa pergunta, aqui parados
e separados, já velhos e prontos a desistir
de todas as coisas iluminadas que valem
a pena, a preferir um centro de mesa
só com flores de plástico das mais
baratas, sem paciência para as pessoas na
rua e para o barulho dos cálices de
brandy e aguardente nos cafés. nenhum dia
será como esse e se nessa altura não
alcançámos a verdade relativa da ficção
científica, seguramente não será hoje, aqui,
dentro de uma tarde de maio, num intervalo,
enquanto bebo um café numa chávena da
lavazza, azul e branca, que te poderei dar
uma conclusão aproximada. ambos errámos em
segredo quando decidimos apaixonar-nos pelas
pessoas que magoam e que não querem saber,
e hoje somos nós os dois quem não quer
saber sequer se o Star Trek é melhor que o
Star Wars.
ouriço do mar
nunca no rescaldo de uma morte
tivémos de atravessar com um nó
na garganta um aperto no coração
um mar de sombras e conduzir
em silêncio para uma parte distante
do país ou do mundo.
nunca nos coube sofrer o suficiente
para merecermos tocar no limite
da poesia.
tivémos de atravessar com um nó
na garganta um aperto no coração
um mar de sombras e conduzir
em silêncio para uma parte distante
do país ou do mundo.
nunca nos coube sofrer o suficiente
para merecermos tocar no limite
da poesia.
2.5.13
catarina
devia-te ter amado a boca em torno de um dia
que não acabasse, devia ter-te levado a concertos
noutro tempo, noutra época, e ter-te abrigado
da chuva com o meu casaco. devia ter estado
contigo em silêncio numa sala, rodeados de
móveis escuros e pesados e papel de parede
azul com motivos florais enquanto segurávamos
a mão um do outro com o medo próprio de
quem precisa que o outro não fuja, não morra,
não desapareça repentinamente. devia ter esperado
cinco ou seis meses numa sala, segurando a tua mão,
enquanto nos preparavam uma fotografia, enquanto
construíssem uma fotografia de onde nunca nos
morressem as cores, as veias, a paixão e o carinho.
de perfil, devia-te ter despido e beijado as coxas,
lentamente, devia-me ter alimentado de ti e de
chamar orquídea ao teu sexo, devia ter chamado
cona ao teu sexo e bebê-lo conforme se abrisse
semelhante a uma orquídea, devias ter amado a minha
boca com uma orquídea quente em torno de
um dia que não acabasse, devíamos ter sido
felizes noutra época, noutro tempo, a sair dos
concertos e tu com frio, fugindo da chuva, para que
despisse o meu casaco e to colocasse sobre os
ombros. devíamos ter tido uma casa com uma
despensa onde existissem cestos de vime com
espinhas de peixe e escamas lá dentro, devíamos
ter ferido as costas e as pernas um ao outro
com espinhas de peixe, com ossos de pássaros
mortos, devíamos ter sonhado que dançávamos
com pessoas antigas, passadas, numa sala com
móveis sombrios atrás e papel de parede e cortinas
pesadas e escuras. devia ter amado a tua boca com
a minha boca com as minhas mãos ao redor de um
dia que não acabasse nunca, onde as palavras
chegassem e onde as pessoas jogassem às cartas
em silêncio, devagar, caindo do tecto em direcção ao
chão como penas de pássaros mortos, flutuantes,
com sorrisos de pó e de nada e olhos guardados
em armários escuros. devia ter-te levado a uma
estação de caminho-de-ferro e ter esperado cinco,
seis meses que nos fotografassem, que nos etiquetassem
e que nos arquivassem como numa memória naquele
filme que vimos durante uma matinée de quinta-feira -
em itálico sempre porque um estrangeirismo erudito um
francesismo -, que nos levassem para longe em bolsos,
em barcos a vapor que naufragassem a meio do oceano
para podermos viver eternamente num sítio azul escuro
onde devem pertencer as memórias aquáticas.
devia ter-te oferecido maçãs encarnadas, devia ter-te
pedido um beijo em contra-luz, à noite, perto dos
candeeiros e do quiosque octogonal já fechado, devia
ter-te dado flores. devíamos ter sido como unhas ou
cabelos, vivos depois de morrermos, mesmo que sejam
as únicas coisas mortas, de nós, quando vivemos.
que não acabasse, devia ter-te levado a concertos
noutro tempo, noutra época, e ter-te abrigado
da chuva com o meu casaco. devia ter estado
contigo em silêncio numa sala, rodeados de
móveis escuros e pesados e papel de parede
azul com motivos florais enquanto segurávamos
a mão um do outro com o medo próprio de
quem precisa que o outro não fuja, não morra,
não desapareça repentinamente. devia ter esperado
cinco ou seis meses numa sala, segurando a tua mão,
enquanto nos preparavam uma fotografia, enquanto
construíssem uma fotografia de onde nunca nos
morressem as cores, as veias, a paixão e o carinho.
de perfil, devia-te ter despido e beijado as coxas,
lentamente, devia-me ter alimentado de ti e de
chamar orquídea ao teu sexo, devia ter chamado
cona ao teu sexo e bebê-lo conforme se abrisse
semelhante a uma orquídea, devias ter amado a minha
boca com uma orquídea quente em torno de
um dia que não acabasse, devíamos ter sido
felizes noutra época, noutro tempo, a sair dos
concertos e tu com frio, fugindo da chuva, para que
despisse o meu casaco e to colocasse sobre os
ombros. devíamos ter tido uma casa com uma
despensa onde existissem cestos de vime com
espinhas de peixe e escamas lá dentro, devíamos
ter ferido as costas e as pernas um ao outro
com espinhas de peixe, com ossos de pássaros
mortos, devíamos ter sonhado que dançávamos
com pessoas antigas, passadas, numa sala com
móveis sombrios atrás e papel de parede e cortinas
pesadas e escuras. devia ter amado a tua boca com
a minha boca com as minhas mãos ao redor de um
dia que não acabasse nunca, onde as palavras
chegassem e onde as pessoas jogassem às cartas
em silêncio, devagar, caindo do tecto em direcção ao
chão como penas de pássaros mortos, flutuantes,
com sorrisos de pó e de nada e olhos guardados
em armários escuros. devia ter-te levado a uma
estação de caminho-de-ferro e ter esperado cinco,
seis meses que nos fotografassem, que nos etiquetassem
e que nos arquivassem como numa memória naquele
filme que vimos durante uma matinée de quinta-feira -
em itálico sempre porque um estrangeirismo erudito um
francesismo -, que nos levassem para longe em bolsos,
em barcos a vapor que naufragassem a meio do oceano
para podermos viver eternamente num sítio azul escuro
onde devem pertencer as memórias aquáticas.
devia ter-te oferecido maçãs encarnadas, devia ter-te
pedido um beijo em contra-luz, à noite, perto dos
candeeiros e do quiosque octogonal já fechado, devia
ter-te dado flores. devíamos ter sido como unhas ou
cabelos, vivos depois de morrermos, mesmo que sejam
as únicas coisas mortas, de nós, quando vivemos.
as bicicletas no parque
"o que é que há de especial no blues?"
há uma angústia uma solidão uma dor
uma pobreza um amor doente um par
de lábios a desesperar por um dedo de
tabaco
disfarçados de deserto à noite quando
os bares abrem as portas e as bebidas
são mais quentes que os vidros que
os copos que os dias
mas só aqui postos em meio de dois mil e
treze no vento insuportável do litoral
oeste de portugal é compreensível que não
percebamos nada disso.
há uma angústia uma solidão uma dor
uma pobreza um amor doente um par
de lábios a desesperar por um dedo de
tabaco
disfarçados de deserto à noite quando
os bares abrem as portas e as bebidas
são mais quentes que os vidros que
os copos que os dias
mas só aqui postos em meio de dois mil e
treze no vento insuportável do litoral
oeste de portugal é compreensível que não
percebamos nada disso.
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