2.8.15

das condições da alma

não tenho tempo
e o tempo nem sequer
cura coisa nenhuma

porque vistas bem
as coisas
o tempo não existe
para além dessa ficção
humana

deste nosso complexo
divino de explicar as coisas

para propôr uma resposta
científica
à deslocação no espaço

31.7.15

os fumadores morrem prematuramente

a poesia alinhada à direita, um saco, um tio ostomizado, vagaroso, a ter de aprender a viver assim; i.e., a cagar de modo automático para dentro de um saco; a ter de aprender a lidar com a flatulência incontinente nos espaços públicos, a ler poemas nos cafés, alinhados à direita, tão ridículos, pensa, tão estúpidos

um destes dias devia aprender a tocar guitarra
ou piano
devia olhar para os livros
devia ler os livros
sair de casa

alinhar a poesia à direita, o musgo, o húmus da poesia todo
alinhado à direita
assim, longe, separado do resto, do usual, vagaroso, ostomizado, a ter de aprender a viver assim, vai ao banco e diz-lhes que estás doente da cabeça (talvez estejas, talvez estejamos todos, não é?), uma cefaleia intocável, uma doença metafísica, na cabeça, contida no espaço físico da cabeça porque quando pensamos sentimos o pensamento na cabeça, atrás dos olhos, debaixo do cabelo, no meio das orelhas. não é?

um destes dias devia sair à rua
bater em alguém e
fugir correr muito correr
muito depressa até
cair de exaustão
esperar que nunca me apanhassem

24.7.15

dez pães

onde quer que estejas por favor não demores pois urge que venhas
há uma caixa com ossos enterrada no quintal das traseiras à
espera que lhe pegue fogo que a incendeie para que depois nos possamos
esquecer dela; sempre apaixonado só isto; não demores de onde vens
com meia dúzia de peixes para o jantar com meia dúzia de urzes de cardos
secos com duas ou três fatias de pão vens de uma ilha vens de uma escada
de uma palavra mas urge que não demores mais do que o necessário
pois o fogo não se ateia sozinho os dedos não se entrelaçam por si
só e a saliva não irriga a língua alheia alienígena

uma caixa de sapatos enterrada não tem propósito longe de um par de pés

16.7.15

sova de cinto

anos oitenta, quarto com vista para a praia, sete
e quarenta e cinco da tarde, junho. tenho a
televisão ligada, que vai começar o telejornal
entretanto; tenho a rádio ligada mas não ouço
nada. há duas gaivotas pousadas no parapeito da
janela, um carro parado em frente ao café
do outro lado da rua há mais de dois dias.
encho um copo com água da torneira, vem
a saber a lixívia porque é terça-feira e a
água sabe sempre mais a lixívia à terça. é
só para tomar um ben-u-ron, um panadol,
qualquer merda que me alivie a cabeça dos
anos oitenta, das gaivotas, das mulheres que
foram deixando peças de roupa pela minha casa.

3.7.15

maria

tão longe, a lituânia, tão escura, tão pesada, um primo
enviando cartas desde lá, as cartas demorando tanto tempo
a chegar, passam pelas mãos de tanta gente, passam no
esófago e no estômago e nos intestinos das máquinas e
nas asas dos pássaros e caem na caixa do correio;

um primo na lituânia escrevendo, falando, «aqui está
tudo bem, temos pão, temos água, temos amor, nas ruas
existem pessoas, as pessoas que estão na rua não nos
vêem -- ninguém vê ninguém --, comemos às nove da noite,
comemos pão, bebemos água, a luz falta quando faz muito
calor ou muito frio, sentimos a tua falta, espero que a presente
te encontre bem; a tia manda beijinhos.» a tia na lituânia,
tão pesada, já não se lembra da idade em que foi nova
e dançou com homens que não eram o tio, em bailes
e em casas e em festas e em becos, mas essa era uma
dança diferente que enrubesce no rosto (sentimos a tua
falta, a falta do calor das tuas mãos buscando o calor
do meu corpo abaixo da cintura, no escuro da lituânia,
no peso do quarto, atentos aos barulhos do corredor,
aos passos do tio pela casa, com a porta entreaberta
e os lábios)

os lábios tão pesados, os frutos tão escuros, o país tão longe
as mãos as nádegas as mamas a língua
em riste
na pele na boca

tão longe daqui, tão longe, tão longe, tão longe
-- meu deus, há tanto tempo --
(ponto de exclamação)

24.6.15

5:45

o aspersor abre-se ruidoso
como uma flor de água
cancerosa e parada
um olho

mamã

um olho como o
do cu

rodando sobre si mesmo
como uma cama de
incesto eléctrico
um cancro
mãe
um cancro de paus
batendo no sotaque
do sono
na luz da solidão

está escuro e ouço a água
rodopiando na relva
e corro como um cão
na relva
à procura da água
do cancro
de uma flor aberta
no olho
do cu
com que morrer lentamente
com que fechar a porta
do poema
e deixar só um tapete a dizer
bem vindo
para quem quiser ou
precisar
de limpar os pés a seguir

porque temos de limpar
os pés no fim de andar
na rua e entrar
em casa

23.6.15

é necessário que uma casa seja uma casa
e não uma imagem de uma casa ou um
poema de uma casa

que uma parede seja uma parede
que uma verdade
não sejam
só palavras
e mentira pelo
meio

11.6.15

pavão

trago a areia na roupa
na pele
sou um hipopótamo
gordo e cansado
e velho

tão velho

chorando líquenes
para cima da margem de um rio
seco
na televisão
apagada dentro
de um desses
documentários
de domingo
em tua casa

nome

a minha boca ardendo de uma comichão, uma tensão,
uma tesão,
uma piça dura, invisível, indizível,
os meus olhos arando terrenos vastos, as raparigas correndo
na rua à noite,
vou só deixar-te aqui uma carta na caixa do correio
rindo à noite e tudo tão afastado das coisas que fazem
sentido,
os meus dedos morrendo, dobro-os, olho as unhas, os lados,
está tudo amarelo, castanho, manchas pelos dedos fora
como os dedos dos mendigos que apanham beatas do chão
e do lixo e as raparigas rindo, fugindo, o sangue dentro delas
mas eu já com nenhuma que sangre, já não posso
querer nenhuma mesmo que sangre,
uma comichão, uma tensão na boca, entre os dentes, no
espaço dos dentes cariados, o ar muito pesado por entre
os dentes, a apertar, a laringe inchada ou só uma
impressão, um cálculo nervoso errado.
os meus olhos arando a boca presa aos dentes contra
o chão mole da fazenda dos meus antepassados,
quantos dos meus antepassados se terão suicidado quando
a vida lhes pesava e apertava o ar na boca?, quantos não
terão conseguido trabalhar a sobrevivência e
o conformismo, para quantos tudo subitamente pequeno demais
não chegou para tapar a solidão e os espinhos secos da angústia?

10.6.15

estamos à procura de chaleiras que fervam água com precisão; cansados do amor que magoa no orgânico de nós, a chorar de não haver, afinal, nada que seja um bocadinho mais mecânico, que não saibamos resguardar-nos melhor da loucura; estamos a ponderar a vida num hospital psiquiátrico, "talvez fosse melhor", embora depois nos apercebamos da saliva seca ao canto da boca anos a fio e o cérebro depois de uns meses só um barulho de nervos e de química, sabemos que as pessoas se vão esquecer de nós porque também nos esquecemos das pessoas; não nos esquecemos nunca de algumas pessoas que se esquecem de nós e nos abandonam em orfanatos de uma certa lama existencial, fecham à chave o egoísmo e levam de nós os lábios as pernas os braços o cheiro a pele o corpo. muito mais mecânicas que orgânicas, para quem as vê do nosso lado realmente a não quererem mais saber, distantes como fotografias de velhos mortos há cinco ou seis mil anos atrás, mas a doer mais, a doer imensamente mais, porque aos velhos nunca os conhecemos, nunca lhes tocámos, nunca nos tocaram a nós. estamos à procura de um fósforo que acenda a morbidez de um fogão a gás, que quente contra a ponta dos dedos nos sussurre "vai ficar tudo bem" para que nos possamos rir e saber "nunca vai ficar tudo bem porque o amor"

estamos à procura de estufar o coração com batatas e feijão-verde e água e colorau e louro e ervilhas e cenoura, sozinhos e com vergonha da nudez, com medo dos hospícios, do esquecimento, miosótis à beira da água a ferver num rio de gás, com o calor de um fósforo contra a cabeça dos dedos "vai ficar tudo bem"; uma escada apoiada numa estante, um vidro na planta do pé mas vai ficar tudo bem (não fica).

estamos vestidos com roupa suja e antiga, a mesma de há pelo menos doze anos

mothers in fiction

o sono não é uma asa que nos leve a um descanso
é só uma desculpa para que a dor não doa como
quando estamos acordados e os segundos têm de
ser assim com tudo isto
ao fim de tantos anos ainda têm tudo isto

uma vela tão perto do fim
mas a atrasar-se sempre demais

9.6.15

setenta

lamento, então, que na velocidade de viveres tenhas perdido noção de como
a alma se revolve na terra húmida, no calor, no papel, que dos meus olhos
não tenhas tirado nada porque são só olhos banais, castanhos, cansados.
que as minhas mãos violentas e às vezes violetas não te tenham chegado nas
feridas, não te tenham servido para levar comida à boca, para te segurar
no frio do inverno, pouco capazes, pouco masculinas. que a minha voz
se tenha tornado cansativa no seu tom monótono e monocórdico de quem
não afasta já uma rouquidão instalada no fundo da saliva. sob a doença há
ainda uma oferenda de aspectos luminosos a que te fechaste, a que não vais
querer mais chegar. existe um tupperware no real do teu frigorífico, maços
de tabaco vazios agora no lixo, mas no espaço do meu passado ainda a
ocuparem os seus lugares na tua sala de estar, um edredão por lavar a seco,
livros, um filme. lamento que nunca venhas ler-me, que não venhas saber-me,
que tenhas atirado tudo para um poço escuro de estatísticas e de irrelevâncias.
os meus olhos banais, cansados, destruídos, vermelhos do sono e do álcool
e do tabaco, da água do mar, só rebolando no vazio, a despropósito,
nus de sentido, secos, a mais valerem estar guardados numa caixa de chumbo
dentro de uma gaveta. lamento, pois, tão cada vez mais a sério, as décadas
onde caibo e onde me estraguei de amor errado, deslocado, lamento
o sol não ser um carro de fogo que me leve para um continente de outra
água mais certa, onde no encanto aceites as minhas mãos, ainda que na asfixia
e no frio às vezes violetas, às vezes violentas, e as trinques quando comeres
laranjas dos meus dedos.

3.6.15

guia prático para lancetar um quisto

existe um homem que todos os dias sobe a rua onde mora com um guarda-chuva
pendurado na parte de trás da gola da camisa. bate nos gatos com paus e pedras
e cospe no chão e veste sempre o mesmo par de calças castanhas. o homem é
feio e é mau, mas não é pior nem mais feio que todos os outros homens. existe
uma rapariga que todos os dias toma café de óculos escuros no café ao cimo da
rua onde o homem mora. lê revistas light e livros do Henry Miller e do Samuel
Beckett e do Carl Jung, fuma cigarros slim mas não light, como as revistas. o
homem sai de casa todos os dias com as mesmas calças e com a mesma violência
de paus, de pedras contra os gatos, a mesma sujidade de cuspir no chão quase
exactamente nos mesmos pontos precisos, aliterando a saliva na calçada, nos
passeios, na estrada e a rapariga só está no café já guardada todos os dias, também,
independentemente das fotografias que tira, nua, quando está sozinha em casa e que
depois mete em sites. o homem não sabe dessas fotografias e também não lhe interessa.
ama a rapariga e transfigura-se subitamente, interessa-se pelo Jung e pelo Miller embora
nunca tenha lido Miller, interessa-se pelos dedos finos de quem talvez toque piano
virando as páginas da revista light e pelos óculos escuros talvez grandes demais para o
rosto, e às vezes paga a meia de leite que a rapariga bebe todos os dias sem lhe dizer
nada. mas só é homem quando sobe ou desce a rua e fica sozinho consigo mesmo,
sem transfigurações e sem amor, só doente como todas as pessoas e irritado com
os gatos, com as pedras da calçada, sempre com o guarda-chuva ali ridículo e absurdo
pendurado na parte de trás da gola da camisa, a regressar para casa com vista a matar
a fome e provavelmente masturbar-se com a ideia da rapariga de óculos escuros no
café, alheio às fotografias dela nua, que seriam, a propósito do onanismo,
uma grande ajuda.

18.5.15

desumanização

que a casa nos caia então sobre as cabeças
e cada centímetro de nós esmagado sob as ruínas
arda sem voz, um palácio de ossos e de
oxigénio a ser consumido, não termos servido
nenhum propósito agora que as corças correm
tão distantes dentro das florestas escuras,
a única luz um par de olhos animais e
a casa derrubada sobre nós, incandescente,
um espaço onde fomos e tivemos mas
agora apenas uma gramática rudimentar
de memórias que não alimentam nenhuma
biologia que se possa conceber.

11.5.15

«My lament is still rebellious;/despite my groans, his hand is just as heavy.» Job 23:2

a rádio dá chuva, não tenho nenhuma mulher ao meu lado a quem possa pedir
"salva-me disto", procurar uma mãe, uma mão, um húmus em todas as
mulheres que me deixam vê-las nuas e tocar-lhes no meio das pernas com
o encanto de um neófito que fode pela primeira vez. tenho um par de meias
desirmanadas e uma delas desce-me abaixo do artelho, ocorre-me quão
feia é a palavra "artelho" e que existem partes no corpo tão mais hediondas
do que os artelhos, que mal fizeram, para merecer esse nome?

a rádio dá chuva quando devia dar um relato da bola, o vizinho de baixo vê
as notícias e eu só as ouço pela janela, com um par de meias desirmanadas,
uma em cada pé, os homens da meteorologia dão sol e calor enquanto a rádio
no ponto oposto da física, dá chuva, estática, chuva parada a mover-se num ruído
que roça o silêncio. que tempo fará do outro lado do mundo?

o vizinho de baixo tem dois cães e uma mulher a quem deve pedir que
o salve disto tudo, que nunca o esqueça, que lhe aqueça os pés à noite
na cama depois de comer um iogurte de côco e beber um chá verde ou uma
merda dessas. e ficam a ver programas de notícias até ficarem com sono.
duvido que o vizinho de baixo tenha ouvido a chuva estática na rádio,
duvido que alguma vez tenha precisado de ser salvo por alguma mulher
ou por alguma novidade meteorológica. é por isso que eu é que uso
meias desirmanadas (uma em cada pé) e lamento o vazio na cama
e noutros sítios mais distantes que ninguém sabe ao certo onde ficam.

9.5.15

La Carne (1991)

é imbecil viver a vida com a expectativa de encontrar a mulher
com as mamas mais bonitas do mundo e amá-la tanto que
sentimos não a merecer, ir para a praia em frente à casa e cortar
os pulsos e esperar, só para ela vir atrás de nós e, ajoelhados na
areia húmida rente ao mar, nos lamber o sangue dos braços
e nos levar de volta para dentro. o resto do filme pode ser
ridículo -- reconheço que é --, mas hei-de me lembrar sempre
dessa parte. ou do fim, em que o pianista a mata e a guarda
dentro do frigorífico, para a ir comendo ao longo dos anos,
tê-la dentro de si, porque a amava tanto que não conseguia
mais viver com ela, mas também lhe era impossível estar longe.
o mais triste é alguns de nós entenderem de facto isto.

4.5.15

ruanda

vem habitar para onde seja outubro, onde nenhum
musgo corrompa as estátuas nos jardins,

estenderemos uma toalha no chão e comeremos
pão, beberemos leite na fome, afugentaremos
o fantasma da fome,
o estigma

3.5.15

letissimulação

fui um rosto com lábios secos
fui um forno numa fábrica de tijolo abandonada
fui uma boca escancarada num faraó por mumificar
fui um cardo contra as pernas e a planta dos pés dos que me tocaram
fui uma estrela incessante no vácuo e apagaram-me
fui um dedo não preênsil tocando nos ramos das árvores queimadas
fui uma voz num corredor vazio
fui um navio embatendo no fundo do oceano
fui um bicho fingindo que dormia
fui uma corda de seda onde as senhoras magoaram os pulsos
fui uma mulher esperando pela menstruação
fui uma corça galopando no meio de um incêndio
fui uma floresta onde antes tinham sido casas

breathing smoke

tivémos um ciclo de tempo, uma mão-cheia de folhas secas,
vimos as unhas entardecer, passámos ao longe nas colinas
enquanto nas eiras as crianças vergastavam as sombras
com vides verdes; comemos um do outro, falámos a gramática
um do outro, fugimos da sombra nos dias de sol e conversámos
sobre o feno sobre as árvores sobre os livros e sobre amónia
de vez em quando. quando nos olhávamos eram essas as
palavras precisas, as nossas mãos uma na outra por dentro
da cidade, por dentro do tempo, mas o tempo nunca parou
como devia, nunca se compadeceu da nossa voz angustiada
pedindo esmola de coração e vísceras e pulmões e nervos.
amo-te como uma catedral serena, comungo-te apesar de
as aves migratórias, apesar de as coisas, de as dores;

quereria saber como pedir perdão como resolver os problemas matemáticos da alma
mas não sei e só me resta confiar-te as margens do meu corpo
da minha idade esperar que não as vergastes conforme o sol lhes aumenta as sombras
esperar que me guardes onde nunca seja escuro nunca seja frio onde o vento
nunca me desoriente os sentidos onde três ou quatro sóis me encandeiem e façam florescer
os dedos

guardei as folhas secas com que entardecemos neste tempo
e posso fazer-te um colchão onde dormir, posso fazer-te um
casaco que te proteja do frio, uma árvore, um brinquedo,
um prato de onde comerás o meu corpo inteiro.

30.4.15

(é irrelevante o que diz a voz, a boca,
tudo o que importa ser dito está nos dentes
cariados, nas nuvens de tabaco a fugir
das narinas, das unhas, dos dedos.)