3.9.13

luques

o tabaco há-de me corroer
como um ácido gasoso
hei-de perder as pernas
os braços
primeiro os dedos dos pés
já tenho uma sensação esquisita
uma hipocondria
quando coço os calcanhares
e por todo o pé uma
gangrena em formação
(sei que uma gangrena em
formação, ainda apenas um
projecto)

o cancro há-de me conhecer
o nome e há-de me tocar
por dentro do corpo
dos pulmões aos ossos
ao pâncreas
há-de salientar a minha
inutilidade
a minha
incapacidade

e vai ser tão luminoso
no escuro das unhas
nos dedos dos pés
que forem ficando pelo
caminho
apodrecendo
fertilizando o chão
para que nasçam
arbustos que ardam.

26.8.13

pode ser antes S. Domingos?

eu posso ainda sentar-me em frente
a este teclado e escrever isto. às vezes
(tantas vezes, e tu sabes) não quero e
ou
já não consigo, mas posso. falam-me
da injustiça do mundo. falam-me
da injustiça de teres morrido e eu
não e, sabes?, também a noto.

podia usar metáforas - podia abusar
de metáforas, meu amigo, falar de
luzes que se apagaram, das palavras
que nunca foram ditas, podia mencionar
a injustiça do mundo, gritar a injustiça
do mundo e de como isto funciona
tudo tão mal
mas a única coisa que tenho para
dizer é que morreste e algures
há saudades no fundo.

espero que quando morrer a maior
parte das pessoas que cá ficarem
diga mal de mim.

21.8.13

animal: a cabra

à Maria

conheço uma mulher só de fotografias e de poemas. é veterinária
e diz ser de Córdoba e quando escreve tem o amarelo da Andaluzia
nas palavras. vejo-a nas fotografias e é bonita ou se calhar
é por causa das palavras e dos poetas. e é do cabelo e dos
olhos e da pele e do sol. ela fala de cidades, há um sítio que criou
só para as cidades; fala em espanhol e atende pessoas e animais
em espanhol, agora que trabalha (conheço uma mulher bonita
de Córdoba, é veterinária; conheço-a só de fotografias e de
noite olho para o tecto do quarto e penso como será a sua
voz quando fala com os animais). ela escreve e quando escreve
não nota mas eu noto toda a Andaluzia e os animais selvagens
que o sol amansa, dormindo à sombra das árvores e das
construções antigas. às vezes penso nesta mulher espanhola
e penso em como é tão bonita nos poemas e nas fotografias
e tenho saudades de uma mulher que conheço apenas
de poemas e de fotografias. e queria dizer-lhe com a garganta
e com a língua e com os dentes e com os lábios e com os
músculos e com as cordas vocais "és tão bonita" ou outro
artifício poético muito autotélico que ela não percebesse;
como quando escreve e arrasta toda a Andaluzia nas palavras
e não o vê. e corre em sonhos no meio dos animais e do pó
e tem uma voz; tem o cabelo e os livros e o sol da Andaluzia
enorme e quente contra as costas. olha: perguntei a um
homem na cidade espanhola junto ao mar, que vivia a uma
rua do porto, se tinha visto um barco atracar e ele batia com
uma caixa de madeira no chão. a caixa estava cheia de parafusos
e moedas antigas, inúteis. ele magoava o chão com a madeira da caixa
e com o ruído do metal. gritou-me que os barcos até podiam
atracar do outro lado do mundo, seria o mesmo para ele.
estava ali à porta de sua casa o dia inteiro, parado, ao sol,
e arrastava-se para dentro sobre uma tábua, o corpo sem
pernas. há um sadismo dentro de mim e ainda bem que
não posso tocar a mulher espanhola que conheço só assim,
não posso corrompê-la nem posso salvá-la de nada. mas
leio-a e vejo-a nas fotografias e ouço-a falando com os animais
no calor. bato com uma caixa de madeira no chão; os barcos
até podiam atracar do outro lado do mundo, era-me igual.

20.8.13

ferro-velho revisited

sou igual a todos os homens que aparecem nas
fotografias
e quando desenterrarem os meus papéis e
os meus raros retratos
dos armazéns
no futuro
serei só uma estatística
sem dores nem nenhuma
peculiaridade de alma
sem nunca ter amado
sem nunca ter acariciado
as costas nuas de uma
mulher linda.
morto e acastanhado no meio
das caixas de cigarros vazias.

clarabóia

sei dar o silêncio
amar-te em silêncio
sem que nunca o
saibas e olhar-te
como quem sabe
que sabes (e sabes)
que te quero contra
a pele à noite cobrindo
a pele de areia à
noite e desejo que
desejes estes lábios
tantas vezes secos
e esta pele sem cheiro
sem húmus. posso
dar-te e dou-te sem
que o saibas uma
argila óbvia e também
lágrimas no centeio
dos olhos no reumático
dos ossos antigos
onde construo
redes e baloiços
para a imagem de ti
uma jaula luminosa
nos ossos onde te
dar uma liberdade
antitética. tenho-te tão
guardada tão
enterrada nos alimentos
quando te olho sei que
sabes sei que há
um magnetismo no
silêncio o amor é
uma posse o amor é
também e sobretudo
uma posse mas para
mim não e há alguém que
não te guarda nem te quer
guardar no meio dos
ossos mas que te tem

enquanto que eu
não.

19.8.13

limítrofe

sou onde
o som não chega
onde a música
nas telhas
das casas
como impulsos
contra a pele

nas mãos.

14.8.13

pobreza

estar em casa depois de uma tarde de tanta
inutilidade
e chorar com as pulgas que se multiplicam
na lã do cobertor e
mordem as pernas
os braços
a música que ainda se ouve
como aniquilarassassinarmatar
conjugar
as pulgas que mordem que
roubam sangue
apenas com os dedos se na adiposidade
fogem antes que as unhas?

chorar de tanta inutilidade
"és um inútil"
ao fundo da vida tantas mulheres
umas mais bonitas que outras
e nenhuma se lembra de mim

tantos estilhaços de vidro
tantos candelabros em casas
esquecidas

tanto suor nestes poemas
que só a custo ainda gritam
os verbos
antigos

as palavras anteriores

o "amor".

8.8.13

os dentes de Beth Gibbons

o corpo é um tabernáculo e deve repousar
após inúmeras semanas de solidão e de
desgaste. deve repousar como um mastro
de um navio no fim do oceano, no fundo,
nos intestinos do mar, deve esquecer-se
de como escrever, de como tomar chá
nos cafés vendo as pessoas. o poema não
deve tomar chá e o poema não deve
beber sangue nem vinho; deve estar no
meio disso, na água. porque o corpo
é um tabernáculo silencioso de mãos
em falta, fala directamente com deus e
espera-o; e mesmo que com a vergonha
da distância, com as minúsculas, o corpo
anseia por ser um campo de trigo onde
corram mulheres e crianças e velhos
primeiro, onde os animais consumam
as carcaças uns dos outros. a voz do
poema é um corpo que come sem apetite
no escuro da casa, os olhos muito
metálicos e mecânicos à procura na
superfície da limalha uma estrela de
grotesco. deve repousar como um mastro
assassinado sob as ondas, com os
animais marinhos e o azul; deve ser como
uma colina, como uma onda de terra, parada
na geografia e nos mapas militares. e escalar
o poema deve ser como escalar o corpo,
e escamar o poema deve ser como escamar
um mastro silencioso na solidão do mar,
com todas as lágrimas confundidas e invisíveis
umas nas outras.

24.7.13

rusticana (partículas de uma fibra óptica)

e o mar cantava dentro dos búzios com o peito todo
"não era o mar, era o sangue reverberando pelo búzio
adentro, era o som do sangue movendo-se por detrás
dos ouvidos, dentro do crâneo" era o sangue no
búzio repercutindo, um oceano escarlate movendo-se
com a lua e ademais caprichos, fechado no labirinto
do corpo, afinal; o mar uivava no búzio com o peito
todo, na praia o sol desaparecia atrás das cabeças das
mulheres de leste, que ficavam até mais tarde, nuas,
doiradas, as mamas redondas a caber em tantas mãos
hipotéticas (nas minhas, pequenas, tão não de homem),
a cabeça comia-lhes o sol pelo cabelo doirado e quando
abriam as bocas na escuridão os búzios repercutiam
o sangue, tinham mapas de esmalte e de neve no lugar
dos dentes, o mar cantava, gritava num desalento. por
que me nascem dentes do chão do corpo? abriam a
boca e iluminavam, esperavam numa ombreira de uma
porta hipotética, nuas, as mãos que lhes agarrassem
as mamas e a saliva que lhes corresse pelas costas
- pelo crâneo, como um mar de espuma e de sangue
e de esmalte. o chão do corpo era fértil mas apenas
para o cultivo de dentes, de mapas, de búzios.

9.7.13

leitmotif

leva-me a sério.
leva-me, a sério.

lava-me. sonhámos com
lavagantes de loiça nas paredes,
estamos tão kitsch, antiquados,
guardados. a sério.
lavamos lavagantes
levamos a sério
o kitsch dos lavagantes
lavados e brincamos às
escondidas enquanto é
tempo, as cerejas rebentam
na fruteira por cima das
ameixas vermelhas (um dia
o meu avô escreveu "ameicha"
já estava senil nessa altura).
lava-me na cerâmica,
diz "cona" sem medo,
"a minha cona é quase
de cerâmica, não tenhas
medo" (consegues
escrever tantas obscenidades
aqui e há quem diga que
isto é poesia?) (não
sei se há quem diga que
isto é poesia, herdei a
senilidade do meu avô,
a hipertricose auricular
há-de vir com o tempo,
se não morrer primeiro
como as cerejas que
explodem ao sol).
lava-me na cerâmica como
fazes aos lavagantes quando
os levas a sério.

olha para mim quando
atravessares a estrada,
diz-me adeus, muito a sério,
toma conta de ti quando
te fores embora.

cancerígena

fui à rua fumar mas deixei
o isqueiro
na casa de banho
numa daquelas bolsas
de plástico onde colocar
sapatos e chinelos
deixei o isqueiro
onde não era preciso
a casa de banho não
é para os pulmões
é para os rins
é para os intestinos.

o corpo tem tanta
sujidade invisível
tanto negro já sob
as unhas ainda tão
curtas na rua sem
isqueiro são três
da manhã e está
fresco na rua está
bom na rua e um
par de pessoas
veio-me incomodar
sentando-se na
mesa ao lado
debaixo das árvores
beijando-se com
a violência sôfrega
de quem come
de quem cobre
animais com cio
e uma das minhas
ex-namoradas diz-me
que a mulher que
amo agora é diferente
quando na verdade
o que quer dizer
é que não gosta dela.

14.6.13

fibromialgia

"o suor são micro-transacções?" olha: despiste o
soutien e não era esta a altura certa. seguras um
sabonete, fazes perguntas. a nossa pele tem o
odor desagrável das sardinhas assadas. "faz
hoje um ano". recapitulemos: não tenho nenhuma
irmã que me espere sob a ombreira da porta, na
casa desabitada onde as vespas fazem ninhos
nos caixilhos podres das janelas; nem sequer uma
figura com as mãos e os pés estigmatizados,
sentada à cabeceira da mesa, de pernas cruzadas,
enquanto reacende a teimosia de um cigarro
com um fósforo húmido. o suor são micro-
-transacções? eu sei lá o que seja o suor, sei
lá que metáfora pretendes usar, quando dizes
isso. afugentamos as pulgas do colchão com
a pressa de foder. faz hoje um ano. devíamos
era sentar-nos na borda do chão e chorar por
todos os familiares que nos estão a morrer de
cancro e de porcarias interiores. mas domina-
-nos a pressa obsessiva de foder e fumar, a pressa
de não saber, não possuir o requisito mínimo de
paciência para saber responder o que porra seja
o suor. suamos quando fodemos, foder é uma
micro-transacção que, de vez em quando, é muito
luminosa. mas outras vezes não.

13.6.13

um beijo electrónico entre tesla e edison

mandíbula que aperte o casquilho na manhã, que
atire de modo violento o tremor da paixão
contra a incandescência dos napperons, esses adereços
antigos e obsoletos cuja única função é a de
provocarem sorrisos condescendentes nas bocas das
gerações mais novas. um osso que fossilize
e guarde a ciência e a filosofia num segredo
que escorra pelo tempo como cera; e que solidifique
- a cera e o osso -
de uma maneira triste, a morrer sem sangue nem
feridas no fundo da corrente alternada.
mandíbula poética que nas mãos segure o casquilho
e o arremesse ao que se come, àquilo com
que se guarnece o estômago e as tripas. e
um prédio que se construa mas que, assim que
terminado, surja envelhecido e deixado ao abandono,
morada para pessoas à beira da morte, ossos,
instalações eléctricas que na noite desistam, respirem
convulsivamente na humidade e interrompam a
sintaxe da casa com o seu choro. janelas onde
mandíbulas rasgando ao longo dos vidros, com
tantas saudades dos campos de trigo com o
céu em cima repleto de corvos e, num
espaço, ao meio, de garças, em conjunto a
desenhar um homem cansado de todo o
chão petrificado. bocas que beijem bocas de
crianças sentadas ao colo, "velho porco", dedos
que como enguias de um mito poético perdido
procurem a carne viva sob a roupa interior.

umas meias rotas

- não tenhas vergonha de escrever poesia nos cafés, com toda
a gente a olhar como se alguma coisa estivesse errada
contigo. a poesia é isto, assim, e faz falta aos meus
ouvidos, sinto falta de te ouvir entre a luz e as sombras
do sol esgueirando-se pelos estores mal fechados (estragados)
deste quarto, quando acordas antes de mim.

a poesia é para miúdos, não é um trabalho
para velhos, a menos que se seja um autor reconhecido.

azulejo

na casa que a minha madrinha aluga
a estudantes da escola de artes e
design (&) fiquei a fumar cigarros
que tirei dos cinzeiros, deixados
pelas raparigas que ali moravam,
depois de ir à manifestação anti-tourada.
o meu corpo era só aquilo, à varanda,
no bairro azul, por cima da pizzaria,
no fim de te teres ido embora.
a televisão só tinha quatro canais
e em nenhum estava a dar nada
de interesse. telenovelas, sobretudo.
faz quase um ano e tinhas-te ido
embora no autocarro e ligavas-me,
nessa altura ouvia ainda a tua voz
ao telefone, o meu corpo com a tua
voz não era só aquilo, por cima da
pizzaria, com uma almofada dentro
de um saco de plástico, à espera
que me fossem buscar. podia ter
amado uma das mulheres que
estavam na manifestação. podia
ter-te esquecido logo nessa noite
e parece-nos tão certo, agora, que
isso teria sido o mais sensato
a fazer.

doméstica #1

quando regresso a casa
às duas da manhã
no degredo interior
de ter de viver
na província
quando a culpa disso
(que animal fugidio
a culpa) é minha
sei que posso
pegar na minha gata
e colocá-la em cima
da mesa com uma
única fatia de fiambre
e apagar a luz da cozinha

imaginar no quarto as
pupilas da minha gata
no escuro
enormes como faróis
de um barco de dentes.

5.6.13

quadrado perfeito

respira o que te parecer serem vinte anos
ininterruptamente
20vinte20
sem parar vinte anos
de respiração

(she was pregnant again and she was going
to name the baby 'Alguidar', after her
grandfather)

deixa que os mortos enterrem
os seus mortos e repara apenas
no arco
tão concreto
quando se dispara
um míssil.

turno da tarde

tenho a vergonha de um neófito pela primeira
vez diante de uma mulher nua. tenho o medo
da poesia pós-moderna a apertar-me o esófago.
tenho uma vertigem de luzes na parede do
quarto e lâmpadas acesas no tecto. como uma
criança pela primeira vez defronte de uma mulher
nua sentada na borda da cama. olho para as
mãos e não sei o que fazer com elas.
tenho um cigarro apagado nos lábios. dependurado.
uma piça.
tenho uma piça e com o medo de quem
vê uma mulher nua pela primeira vez
não sei o que fazer com ela e com as
mãos. tenho a poesia pós-moderna a estorvar
no esófago e no sangue que me endurece
a piça.

escritório

não vou ver a tua exposição de fotografia
porque não acredito em fotografia
não acredito em psicologia
não acredito no Freud.

creio no vinho tinto e n'O Capote
de Gogol.

croft em cálice morno

à uma da tarde começam os comboios para
são martinho do porto onde mora um amigo
ainda em 1967. em junho de mil novecentos e
sessenta e sete o calor da uma da tarde (treze
horas) incomoda as senhoras que esperam de
pé pelo comboio e se vão abanando com
jornais e chapéus e leques e uma pergunta-me
"não tem calor?" e outra afirma que está tanto
calor. o meu amigo tem os óculos na ponta do
nariz em são martinho do porto sentado à janela
de sua casa a ler Hemingway. a ler um livro do
Hemingway que ele escreveu quando tinha só
bigode ainda não a barba completa. em 1967
em são martinho do porto o Hemingway já tinha
morrido há seis anos. o meu amigo não tinha barba
e fumava muito. nessa altura falava-se pouco do
cancro dos pulmões e mesmo que se falasse
muito do cancro dos pulmões o meu amigo
não quereria saber porque ao menos quando fumava
não chorava ao menos quando fumava não
lhe fugia a cabeça para coisas e sentimentos
tristes. porque a cabeça das pessoas fugia muito
para coisas tristes à uma da tarde em são martinho
do porto em mil novecentos e sessenta e sete.
o Hemingway matou-se em julho de 1961. eu e o
meu amigo em são martinho do porto às três e
quinze da tarde ainda estamos vivos e a comer
pastéis de nata enquanto bebemos café em frente
à praia. quanto ao futuro. quanto ao futuro. que
se foda. hoje não se fala de cancro dos pulmões.