as mulheres a colher silvas como se fossem
tesouros, ferindo as mãos, pensam no outono
e em trompetes com surdina, desafinados,
na boca seca, nos lábios de homens escuros,
cinzentos, desiludidos, em bares velhos as
mulheres colhendo silvas como quem colhe
palavras que arranham e cortam e magoam.
28.9.14
15.7.14
zoologia
ouçamos os pavões caindo do tecto no chão da sala,
sobre o tapete, partindo os pescoços, cantando,
morrendo. ouçamo-los quebrando nozes com os
bicos, quando é o tempo, os crâneos esmagados
por automóveis na praça, como os crâneos esmagados
por cascos de cavalos, nos sonhos de infância, os
olhos vítreos só já lugares para moscas e pó e formigas
e derrames sanguineos dizendo "no sopé dos montes,
onde o vento é rejeitado pelos muros de pedra e terra,
as janelas não fecham e ouve-se o mar aqui fechado
dentro, como uma alma penada, como alguém que
preferiu ficar em vez de aceitar que se morre"
os pavões cantando, morrendo, caindo do tecto
como insectos mal se instala o verão e o calor no
sopé das montanhas, nas casas caindo de humidade
e de barulho do mar, resistindo sabe deus como
ao vento.
sobre o tapete, partindo os pescoços, cantando,
morrendo. ouçamo-los quebrando nozes com os
bicos, quando é o tempo, os crâneos esmagados
por automóveis na praça, como os crâneos esmagados
por cascos de cavalos, nos sonhos de infância, os
olhos vítreos só já lugares para moscas e pó e formigas
e derrames sanguineos dizendo "no sopé dos montes,
onde o vento é rejeitado pelos muros de pedra e terra,
as janelas não fecham e ouve-se o mar aqui fechado
dentro, como uma alma penada, como alguém que
preferiu ficar em vez de aceitar que se morre"
os pavões cantando, morrendo, caindo do tecto
como insectos mal se instala o verão e o calor no
sopé das montanhas, nas casas caindo de humidade
e de barulho do mar, resistindo sabe deus como
ao vento.
14.7.14
alimentação
j.
ela também precisa de comer ainda que não da mesma
forma pois o amor dos alimentos é maior contra os seus
lábios sobre a sua língua - é 490 vezes maior, é setenta
vezes sete maior
porque é para sempre
ela precisa de comer, de se alimentar, de se manter viva,
mantemo-nos vivos uns pelos outros e por vezes por nós
próprios também e os frutos na boca e na língua e os
dentes nos frutos (nunca os frutos nos dentes) e os dedos
nos frutos, nas cascas, que cheiro a laranja é este? quando
entravas na sala, as gengivas carregadas de frutos em pequena
e agora em maior também, cuspindo os caroços das ameixas
para a mão, apertando-os nos lábios, empurrando-os com
a língua num beijo inverso, a fruta amando-te mas eu
490 vezes, 70x7, para sempre.
ela também precisa de comer ainda que não da mesma
forma pois o amor dos alimentos é maior contra os seus
lábios sobre a sua língua - é 490 vezes maior, é setenta
vezes sete maior
porque é para sempre
ela precisa de comer, de se alimentar, de se manter viva,
mantemo-nos vivos uns pelos outros e por vezes por nós
próprios também e os frutos na boca e na língua e os
dentes nos frutos (nunca os frutos nos dentes) e os dedos
nos frutos, nas cascas, que cheiro a laranja é este? quando
entravas na sala, as gengivas carregadas de frutos em pequena
e agora em maior também, cuspindo os caroços das ameixas
para a mão, apertando-os nos lábios, empurrando-os com
a língua num beijo inverso, a fruta amando-te mas eu
490 vezes, 70x7, para sempre.
8.7.14
dead man
dos suicídios lentos e dos para-suicídios já não
havia muito mais a dizer, por isso substituiam-
-se as palavras por répteis e por pedaços de tecido -
roupa que envelheceu, calças que já não servem -
e os psicólogos não entendem nem de répteis nem
de palavras por isso ficam silenciosos finalmente,
sozinhos a pensar em glandes e em clitóris e
em chupetas na boca de adultos com fraldas.
os cavalos partem em filas em direcção a um
suicídio lento, para serem cola nos trabalhos manuais
dos miúdos da escola primária. os poetas estão todos
doentes e preferem falar de cavalos que de suicídios.
havia muito mais a dizer, por isso substituiam-
-se as palavras por répteis e por pedaços de tecido -
roupa que envelheceu, calças que já não servem -
e os psicólogos não entendem nem de répteis nem
de palavras por isso ficam silenciosos finalmente,
sozinhos a pensar em glandes e em clitóris e
em chupetas na boca de adultos com fraldas.
os cavalos partem em filas em direcção a um
suicídio lento, para serem cola nos trabalhos manuais
dos miúdos da escola primária. os poetas estão todos
doentes e preferem falar de cavalos que de suicídios.
12.6.14
dos vícios
este é o tempo para partir espelhos, para louça feia nas
paredes, para actividades, para palavras menos capazes,
este é o tempo em que se vai a pé para casa e se
pensa, entre aspas, "ao menos há uma casa para onde
voltar", ainda que a casa para onde se volta seja só
um casulo muito remoto, um contexto de tijolos e
cimento e ferro e tubos de metal ao jeito de veias
e mofo e musgo e bolor e fungos ao jeito de uma
doença, um cancro. este é o tempo em que a casa
já não existe, foi-se embora nas mãos resolutas das
pessoas que ainda queremos, que ainda amamos, ainda
que no coração - na alma - que imaginamos na cabeça
nos tentemos convencer "amámos".
este é também o tempo em que nos falham os isqueiros,
em que as pessoas se esquecem dos nossos nomes. é
uma época para chorar, para nos esvairmos, desolados, em
lágrimas acres: eis que dói não saberem o nosso nome,
dói de um modo tão profundo, de uma maneira tão
incisiva. nesta hora plantámos patas de coelho nas fazendas
dos nossos avós e não germinou coisa nenhuma; o
nosso esforço foi em vão. na miséria das casas (não
lares, casas-somente) ainda lamentamos a louça feia
pendurada nas paredes, os espelhos partidos, as fotografias
por onde passaram décadas de pó e se foram esquecendo
sobre as cómodas, recordações falsas de pessoas e de
coelhos que foram acabando, que foram deixando de
ser viáveis biologicamente e se tornaram só louça
muito feia, memórias muito inúteis para encher poemas.
paredes, para actividades, para palavras menos capazes,
este é o tempo em que se vai a pé para casa e se
pensa, entre aspas, "ao menos há uma casa para onde
voltar", ainda que a casa para onde se volta seja só
um casulo muito remoto, um contexto de tijolos e
cimento e ferro e tubos de metal ao jeito de veias
e mofo e musgo e bolor e fungos ao jeito de uma
doença, um cancro. este é o tempo em que a casa
já não existe, foi-se embora nas mãos resolutas das
pessoas que ainda queremos, que ainda amamos, ainda
que no coração - na alma - que imaginamos na cabeça
nos tentemos convencer "amámos".
este é também o tempo em que nos falham os isqueiros,
em que as pessoas se esquecem dos nossos nomes. é
uma época para chorar, para nos esvairmos, desolados, em
lágrimas acres: eis que dói não saberem o nosso nome,
dói de um modo tão profundo, de uma maneira tão
incisiva. nesta hora plantámos patas de coelho nas fazendas
dos nossos avós e não germinou coisa nenhuma; o
nosso esforço foi em vão. na miséria das casas (não
lares, casas-somente) ainda lamentamos a louça feia
pendurada nas paredes, os espelhos partidos, as fotografias
por onde passaram décadas de pó e se foram esquecendo
sobre as cómodas, recordações falsas de pessoas e de
coelhos que foram acabando, que foram deixando de
ser viáveis biologicamente e se tornaram só louça
muito feia, memórias muito inúteis para encher poemas.
21.5.14
nas notícias falavam da gripe das aves
fala-me de dinheiro. fala-me antes de dinheiro. amanhã tens tempo
de no trabalho dizeres "fodi o poeta". amanhã é sempre tempo
disso. "o poeta falou-me de portas de mogno nas casas
amarelas onde se fazia turismo de habitação mas que estavam
sempre vazias. o poeta atrapalhou-se com a piça, não sabia o que
fazer com ela, nas mãos, tive de a guiar como se guia um cão
cego nos passeios, tive de o guiar e de o meter lá dentro e o
raio do poeta estava só semi-erecto, mas, olha, foi o que se
arranjou, ele estava ali e eu estava ali e fodemos. ele pediu-me
que lhe falasse de dinheiro em vez de me abraçar e fumou dois
cigarros antes de voltar para a cama, entretanto fiquei com os
pés gelados."
o poeta está só a olhar para a rua e a pensar que merda é
que está a fazer à sua vida, tu com os pés a esfriar, na
cama, que a casa do poeta é miserável e ele nem muda a roupa
da cama porque raramente a usa. o poeta já não abraça, o poeta
já não se irrita porque as mulheres fumam um cigarro no fim
de foder -- vai ele próprio para sala, no escuro, sem saber
o que fazer às pernas, tão parvas, tão imbecis, as pernas,
tão teimosas, a querer acreditar no amor com maiúscula, "tens
ali uma mulher na cama a precisar de ser abraçada", mas ao poeta
não há quem o abrace e portanto também já deixou de abraçar
quem precisa de o ser. nu à janela e com a vida a ser uma merda,
ninguém que lhe fale de dinheiro, que lhe explique "o dinheiro funciona
assim", tão mau na cama, tão reles, a piça ainda teimosa no amor
maiusculizado, a miudinha que veio aqui parar a casa porque
queria foder com o poeta. tu, na cama, a roer as unhas, com o
candeeiro ligado na mesa-de-cabeceira, ao lado do Rimbaud
e do Fernando Pessoa e do Joyce e do Vian. mas o amor
com maiúscula já longe de onde a luz do candeeiro chega,
já noutro país, a fazer compras em lojas de selos e de botões de punho.
ninguém explica ao poeta como funciona o dinheiro nem a piça
e precisa que lha guiem, às vezes, no meio das pernas, ele de olhos
fechados a tentar imaginar como será o amor ou porque é que a
rapariga não chega ou então talvez seja do tabaco envelhecendo as
artérias muito antes de ser tempo disso ou seja só
-- deus nos livre! --
falta de vontade.
de no trabalho dizeres "fodi o poeta". amanhã é sempre tempo
disso. "o poeta falou-me de portas de mogno nas casas
amarelas onde se fazia turismo de habitação mas que estavam
sempre vazias. o poeta atrapalhou-se com a piça, não sabia o que
fazer com ela, nas mãos, tive de a guiar como se guia um cão
cego nos passeios, tive de o guiar e de o meter lá dentro e o
raio do poeta estava só semi-erecto, mas, olha, foi o que se
arranjou, ele estava ali e eu estava ali e fodemos. ele pediu-me
que lhe falasse de dinheiro em vez de me abraçar e fumou dois
cigarros antes de voltar para a cama, entretanto fiquei com os
pés gelados."
o poeta está só a olhar para a rua e a pensar que merda é
que está a fazer à sua vida, tu com os pés a esfriar, na
cama, que a casa do poeta é miserável e ele nem muda a roupa
da cama porque raramente a usa. o poeta já não abraça, o poeta
já não se irrita porque as mulheres fumam um cigarro no fim
de foder -- vai ele próprio para sala, no escuro, sem saber
o que fazer às pernas, tão parvas, tão imbecis, as pernas,
tão teimosas, a querer acreditar no amor com maiúscula, "tens
ali uma mulher na cama a precisar de ser abraçada", mas ao poeta
não há quem o abrace e portanto também já deixou de abraçar
quem precisa de o ser. nu à janela e com a vida a ser uma merda,
ninguém que lhe fale de dinheiro, que lhe explique "o dinheiro funciona
assim", tão mau na cama, tão reles, a piça ainda teimosa no amor
maiusculizado, a miudinha que veio aqui parar a casa porque
queria foder com o poeta. tu, na cama, a roer as unhas, com o
candeeiro ligado na mesa-de-cabeceira, ao lado do Rimbaud
e do Fernando Pessoa e do Joyce e do Vian. mas o amor
com maiúscula já longe de onde a luz do candeeiro chega,
já noutro país, a fazer compras em lojas de selos e de botões de punho.
ninguém explica ao poeta como funciona o dinheiro nem a piça
e precisa que lha guiem, às vezes, no meio das pernas, ele de olhos
fechados a tentar imaginar como será o amor ou porque é que a
rapariga não chega ou então talvez seja do tabaco envelhecendo as
artérias muito antes de ser tempo disso ou seja só
-- deus nos livre! --
falta de vontade.
16.5.14
tinteiro de impressora
noutro dia, talvez, hoje já não. tirar esta
folha do caderno, lambê-la, pôr-ta na mão,
"eis a minha boca, a humidade porca da minha
saliva, a verdade bacteriana que se me solta
dos dentes. este sou eu e quero que me entres
pelo corpo; onde não nos conhecemos preciso de
ti, ou, na idade, na beleza das construções
poéticas, num suposto domínio da linguagem,
preciso-te." preciso de ti, quero escolher-te,
arrancar esta folha que no outro axioma
tem um poema com o teu nome, tem palavras
desperdiçadas no discurso da ideia das tuas
mãos. dou-te as mãos mas não esta folha,
só que a intenção das minhas mãos perde-se
sem o papel. um dia trago-te centeio para
um pão, mas hoje noto que já sabes no silêncio.
folha do caderno, lambê-la, pôr-ta na mão,
"eis a minha boca, a humidade porca da minha
saliva, a verdade bacteriana que se me solta
dos dentes. este sou eu e quero que me entres
pelo corpo; onde não nos conhecemos preciso de
ti, ou, na idade, na beleza das construções
poéticas, num suposto domínio da linguagem,
preciso-te." preciso de ti, quero escolher-te,
arrancar esta folha que no outro axioma
tem um poema com o teu nome, tem palavras
desperdiçadas no discurso da ideia das tuas
mãos. dou-te as mãos mas não esta folha,
só que a intenção das minhas mãos perde-se
sem o papel. um dia trago-te centeio para
um pão, mas hoje noto que já sabes no silêncio.
mercy fuck
queima-me os ossos com ácido
de modo a que os possas
morder - este poema é um
osso para alimentar de medula
os meninos subnutridos da
áfrica subsaariana.
de modo a que os possas
morder - este poema é um
osso para alimentar de medula
os meninos subnutridos da
áfrica subsaariana.
é amarelo o teu nome, que mágoa, há
pessoas que assentam assim nos nomes e
não cabem, como tu, com o teu corpo
a sair, a boca primeiro,
procurando, pedindo "água, mel, beijos",
o teu cabelo queimando, ardendo, em
argolas, cachos de anéis de queratina,
pequena, a cheirar a sangue e a nervos
e a cartilagens e a bichos vivos. só
lamentas o teu nome, "quer dizer amarelo"
como ovos e uma luz solar nos desenhos
das crianças.
pessoas que assentam assim nos nomes e
não cabem, como tu, com o teu corpo
a sair, a boca primeiro,
procurando, pedindo "água, mel, beijos",
o teu cabelo queimando, ardendo, em
argolas, cachos de anéis de queratina,
pequena, a cheirar a sangue e a nervos
e a cartilagens e a bichos vivos. só
lamentas o teu nome, "quer dizer amarelo"
como ovos e uma luz solar nos desenhos
das crianças.
7.5.14
arquimedes
comerias iogurtes gregos no processo da aritmética através do
qual concluías o conhecimento que hoje estudamos na
escola? penso em ti mais na salada com iogurte no centro
comercial do que velho e escuro lambendo a matemática.
qual concluías o conhecimento que hoje estudamos na
escola? penso em ti mais na salada com iogurte no centro
comercial do que velho e escuro lambendo a matemática.
vindimas
chave de água parada, um melro
roendo um pedaço de fígado,
a minha boca mordendo as tuas
mamas gigantescas à noite, as
mãos tacteando e felizmente tão
fáceis de encontrar no escuro,
enormes, quentes, rijas como montanhas
de carne luz cartilagem nervos sexo
a cheirar a pele e a líquidos
congelados
dentro de uma bateria,
com o ácido sulfúrico, a minha
boca poluída de sangue e de vontade,
a língua amando amassando as tuas mamas
tão grandes, no escuro, um pombo doente
comendo um pedaço de fígado no chão.
roendo um pedaço de fígado,
a minha boca mordendo as tuas
mamas gigantescas à noite, as
mãos tacteando e felizmente tão
fáceis de encontrar no escuro,
enormes, quentes, rijas como montanhas
de carne luz cartilagem nervos sexo
a cheirar a pele e a líquidos
congelados
dentro de uma bateria,
com o ácido sulfúrico, a minha
boca poluída de sangue e de vontade,
a língua amando amassando as tuas mamas
tão grandes, no escuro, um pombo doente
comendo um pedaço de fígado no chão.
3.5.14
pulmão mecânico
dos primeiros sinais de velhice, felipa, é sentar-me a uma
mesa e irritar-me porque os miúdos a deixaram imunda.
a imundície irrita as pessoas envelhecidas. dos primeiros
sinais da idade adulta é esconder o isqueiro, para que
não nos peçam lume ou tabaco, "só tenho estes até
ao fim da semana", "já tive que pedir este, sabe..."
é nem notar que o mundo está a ir para uma
figura geométrica muito absurda, um poliedro de fumo.
mesa e irritar-me porque os miúdos a deixaram imunda.
a imundície irrita as pessoas envelhecidas. dos primeiros
sinais da idade adulta é esconder o isqueiro, para que
não nos peçam lume ou tabaco, "só tenho estes até
ao fim da semana", "já tive que pedir este, sabe..."
é nem notar que o mundo está a ir para uma
figura geométrica muito absurda, um poliedro de fumo.
arrancar as asas de um besouro
as tenazes penduradas nas paredes e as crianças
dormindo nuas no chão, em frente à lareira, a
sonhar com lagostas de cerâmica, feias, no dia
de anos de um amigo.
se menstruadas, as mulheres fodiam, entregavam-se,
riam-se, cantavam músicas num segredo,
"peido de cona por causa do ar, paredes
infladas de ar no vácuo, processos pneumáticos",
assim cantavam, nos quartos, enquanto os homens
apenas objectos, pois durante as fodas os homens
só estátuas, adereços, paisagens paradas e estáticas,
pensando em pássaros, pensando em recibos e em
tenazes, jamais cantando através do olho singular
da piça, por onde escoa sémen mas também mijo.
as bocas dos homens respirando sôfregas como as
das crianças dormindo em frente à lareira, as
portas todas escancaradas sem medo de que os
outros escutem o remorso da intimidade, a
engrenagem dos corpos desenferrujando poesia e
música como se um rio de óleo nas dobradiças,
como se o amor ocasionalmente fosse um advérbio
de modo, como se fosse uma paisagem descrita
num parágrafo de um livro datado de mil oitocentos
e oitenta e três. nas paredes as tenazes e a
tinta escamando, as bocas das crianças respirando o
chumbo, o amianto, a canalização dos corpos já
fraca, tão cedo, no dia de anos de um amigo,
cheios de sangue e com as mãos a explodir de intimidade.
dormindo nuas no chão, em frente à lareira, a
sonhar com lagostas de cerâmica, feias, no dia
de anos de um amigo.
se menstruadas, as mulheres fodiam, entregavam-se,
riam-se, cantavam músicas num segredo,
"peido de cona por causa do ar, paredes
infladas de ar no vácuo, processos pneumáticos",
assim cantavam, nos quartos, enquanto os homens
apenas objectos, pois durante as fodas os homens
só estátuas, adereços, paisagens paradas e estáticas,
pensando em pássaros, pensando em recibos e em
tenazes, jamais cantando através do olho singular
da piça, por onde escoa sémen mas também mijo.
as bocas dos homens respirando sôfregas como as
das crianças dormindo em frente à lareira, as
portas todas escancaradas sem medo de que os
outros escutem o remorso da intimidade, a
engrenagem dos corpos desenferrujando poesia e
música como se um rio de óleo nas dobradiças,
como se o amor ocasionalmente fosse um advérbio
de modo, como se fosse uma paisagem descrita
num parágrafo de um livro datado de mil oitocentos
e oitenta e três. nas paredes as tenazes e a
tinta escamando, as bocas das crianças respirando o
chumbo, o amianto, a canalização dos corpos já
fraca, tão cedo, no dia de anos de um amigo,
cheios de sangue e com as mãos a explodir de intimidade.
28.4.14
ervas para pães ázimos
a minha mãe é um esqueleto conduzindo uma mota que
devia estar num museu
no méxico em estradas onde ninguém passa à excepção
dos mortos e dos velhos
pois os velhos são quase mortos já vestem a roupa
de quem come à mesa dos que faleceram já falam
essa língua silenciosa com a boca inchada de ar
escaravelhos terra água vermes
a minha mãe pára pelo caminho e cozinha tijolos
em fornos e diz
«construam fábricas e abandonem-nas passados oitenta
anos para que no futuro os vivos recordem as
vossas palavras e os vossos nomes.»
e a minha mãe come as raparigas bonitas no
pó e a mota devia estar num museu mas move-se
o motor ainda a empurra na doença e no amarelo
que não é a cor preferida da minha mãe mas
era a cor preferida da mãe da minha mãe e a
minha mãe escreve um poema de dentes de vermes
e procura a sua mãe que mesmo viva já via
o que os mortos vêem já escutava os mortos
quando o padrasto da minha mãe junto das margens
do rio tejo em cacilhas se acometia ou pelo menos
uma pequena percentagem de si uma âncora de
cobre enterrada no forno da mãe da minha mãe
para cozinhar tijolos de cancro de ossos de nervos
e a minha mãe nos cactos com um poncho sem
saber como beber o álcool nos copos baços.
devia estar num museu
no méxico em estradas onde ninguém passa à excepção
dos mortos e dos velhos
pois os velhos são quase mortos já vestem a roupa
de quem come à mesa dos que faleceram já falam
essa língua silenciosa com a boca inchada de ar
escaravelhos terra água vermes
a minha mãe pára pelo caminho e cozinha tijolos
em fornos e diz
«construam fábricas e abandonem-nas passados oitenta
anos para que no futuro os vivos recordem as
vossas palavras e os vossos nomes.»
e a minha mãe come as raparigas bonitas no
pó e a mota devia estar num museu mas move-se
o motor ainda a empurra na doença e no amarelo
que não é a cor preferida da minha mãe mas
era a cor preferida da mãe da minha mãe e a
minha mãe escreve um poema de dentes de vermes
e procura a sua mãe que mesmo viva já via
o que os mortos vêem já escutava os mortos
quando o padrasto da minha mãe junto das margens
do rio tejo em cacilhas se acometia ou pelo menos
uma pequena percentagem de si uma âncora de
cobre enterrada no forno da mãe da minha mãe
para cozinhar tijolos de cancro de ossos de nervos
e a minha mãe nos cactos com um poncho sem
saber como beber o álcool nos copos baços.
24.4.14
leonor
és uma pedra de enxofre que assenta na mesa onde
comemos almoços e jantares e os teus cabelos tocando
nos alimentos, emprenhando-os, "voltai aos fornos e
aos fogões de onde viestes, tendes dentro de vós a
progénie dos meus olhos, dos meus dedos esguios, dentro
de quinze anos haveis de parir titânides inférteis."
e tocas piano como um animal doente de cio e de
noite, dizes "titânides", só dás titânides onde tocas,
a pedra dos teus lábios tantos anos depois, "isto
sobrou" - colocas os joelhos no chão, onde haja relva e
plantas, apontas a púbis e sorris e informas "relva e
plantas, água." já se foram embora tantos anos,
não há gavetas com as tuas meias e cuecas em
minha casa e devia haver.
parimos titânides, deuses ancestrais, mentiras mitológicas
do que nos convencemos ser amor. estavas coberta
de água do mar e ainda assim tocavas piano,
cansada, farta, "não sei fazer arte, não me peças
como." falavas uma pedra de tabaco, eu era um
neófito, um albatroz cego, cheio de fome de espinhas,
berrando "relva e plantas, água", sem emprenhar titânides.
comemos almoços e jantares e os teus cabelos tocando
nos alimentos, emprenhando-os, "voltai aos fornos e
aos fogões de onde viestes, tendes dentro de vós a
progénie dos meus olhos, dos meus dedos esguios, dentro
de quinze anos haveis de parir titânides inférteis."
e tocas piano como um animal doente de cio e de
noite, dizes "titânides", só dás titânides onde tocas,
a pedra dos teus lábios tantos anos depois, "isto
sobrou" - colocas os joelhos no chão, onde haja relva e
plantas, apontas a púbis e sorris e informas "relva e
plantas, água." já se foram embora tantos anos,
não há gavetas com as tuas meias e cuecas em
minha casa e devia haver.
parimos titânides, deuses ancestrais, mentiras mitológicas
do que nos convencemos ser amor. estavas coberta
de água do mar e ainda assim tocavas piano,
cansada, farta, "não sei fazer arte, não me peças
como." falavas uma pedra de tabaco, eu era um
neófito, um albatroz cego, cheio de fome de espinhas,
berrando "relva e plantas, água", sem emprenhar titânides.
9.4.14
mulher de enxofre
baixei o tampo da sanita no fim de mijar e cheirava a
frutos secos e a café, embora na qualidade imprecisa e vaga
do meu nariz-e-olhos constipado só me cheirasse a tabaco
com muco e vinho tinto. fui-me embora e não avisei porque
mais do que tu num quarto esperando, deus estava no
silêncio e nos caules destruídos e era para lá que devia
dirigir-me, era nesse lugar de loiça sanitária que era
suposto estar. e estive. horas. com o calor do enxofre
como ovos estragados vergastando a cara, à espera de
deus enquanto os homens me davam cigarros e me
fodiam dentro dos olhos.
deus não é para ser procurado assim mas procurei-o ainda
nas banheiras abandonadas por detrás do hospital termal.
uma pessoa podia morrer ali e ninguém dava conta.
frutos secos e a café, embora na qualidade imprecisa e vaga
do meu nariz-e-olhos constipado só me cheirasse a tabaco
com muco e vinho tinto. fui-me embora e não avisei porque
mais do que tu num quarto esperando, deus estava no
silêncio e nos caules destruídos e era para lá que devia
dirigir-me, era nesse lugar de loiça sanitária que era
suposto estar. e estive. horas. com o calor do enxofre
como ovos estragados vergastando a cara, à espera de
deus enquanto os homens me davam cigarros e me
fodiam dentro dos olhos.
deus não é para ser procurado assim mas procurei-o ainda
nas banheiras abandonadas por detrás do hospital termal.
uma pessoa podia morrer ali e ninguém dava conta.
cigarro húmido
tão injusto nunca ter falado com a minha mãe num
poema onde me proteja do metal em brasa do mundo,
um poema onde me mande dinheiro num envelope,
"toma, eis o amor como os olhos de um peixe
no meio das lascas de gelo, nos supermercados."
a minha mãe com tantos segredos no útero cansado,
com as mãos fechadas, doentes, e os miúdos loucos
como ovelhas chamando-a no páteo. eis o amor como
flores horríveis, dentro de jarras sem água.
poema onde me proteja do metal em brasa do mundo,
um poema onde me mande dinheiro num envelope,
"toma, eis o amor como os olhos de um peixe
no meio das lascas de gelo, nos supermercados."
a minha mãe com tantos segredos no útero cansado,
com as mãos fechadas, doentes, e os miúdos loucos
como ovelhas chamando-a no páteo. eis o amor como
flores horríveis, dentro de jarras sem água.
se porventura agora
dentro da constipação sabe mal o tabaco na boca
mas nunca nos pulmões
alcatrão pela traqueia adentro
tungsténio queimando os brônquios.
mas nunca nos pulmões
alcatrão pela traqueia adentro
tungsténio queimando os brônquios.
6.4.14
cómoda de Danae
tenho umas calças de pijama que uso quando estou doente.
dito isto, está completo, o poema, porque era o que tinha a
dizer. é um verso e tem uma história inteira na semântica e
na sintaxe da sua duração, creio que o possível leitor imagine
as suas próprias histórias, que sintonize a sua própria verdade
apenas com o verso
tenho umas calças de pijama que uso quando estou doente.
a poesia não é não-ficção, ainda que nas livrarias a ponham
ali ao lado dos livros técnicos de hortofloricultura, de matemática,
dos enormes tratados biográficos e dos cansativos livros de
história e de alquimia. a poesia é uma ficção, "tenho umas calças
de pijama que uso quando estou doente" é parte de um conto
sempre inacabado, o sujeito poético uma personagem que
tem umas calças de pijama, usa-as quando está doente, há
inúmeras formas de se estar doente, e o poema de um verso
espera que o leitor possível as pense, quando lê. a não-ficção
é aborrecida porque é só
o que é
só
o que as palavras dizem
mas a poesia que não aponta nem apresenta respostas é
uma ficção de cada um.
dito isto, está completo, o poema, porque era o que tinha a
dizer. é um verso e tem uma história inteira na semântica e
na sintaxe da sua duração, creio que o possível leitor imagine
as suas próprias histórias, que sintonize a sua própria verdade
apenas com o verso
tenho umas calças de pijama que uso quando estou doente.
a poesia não é não-ficção, ainda que nas livrarias a ponham
ali ao lado dos livros técnicos de hortofloricultura, de matemática,
dos enormes tratados biográficos e dos cansativos livros de
história e de alquimia. a poesia é uma ficção, "tenho umas calças
de pijama que uso quando estou doente" é parte de um conto
sempre inacabado, o sujeito poético uma personagem que
tem umas calças de pijama, usa-as quando está doente, há
inúmeras formas de se estar doente, e o poema de um verso
espera que o leitor possível as pense, quando lê. a não-ficção
é aborrecida porque é só
o que é
só
o que as palavras dizem
mas a poesia que não aponta nem apresenta respostas é
uma ficção de cada um.
31.3.14
necrose
fabricar um sabonete com que lavar as partes pudendas,
montá-lo em casa, no bidet, que palavrinha imbecil.
mastigar glicerina, há certas comodidades domésticas que
não são para ir para a boca - o sabonete é para as
mãos, para os pés, para as partes pudendas, não convém
que cheirem ou que saibam mal (por vezes as partes
pudendas são para estar na boca, numa intimidade esquisita
que infunde medo, um chá de medo, uma infusão na
intimidade).
ferve-se a glicerina, vê-se nos filmes franceses como
construir sabão em casa, panelas grotescas, o estanho e o
alumínio todos sujos de uma gordura, por fora, nos
fogões a lenha, o trabalho todo, o suplício todo da
gordura purificada ao lume só para lavar o rosto,
tê-lo perfumado e pronto para a eventualidade remota
de oferecerem beijos ao jeito de intimidade
com ou sem
o sexo na boca.
montá-lo em casa, no bidet, que palavrinha imbecil.
mastigar glicerina, há certas comodidades domésticas que
não são para ir para a boca - o sabonete é para as
mãos, para os pés, para as partes pudendas, não convém
que cheirem ou que saibam mal (por vezes as partes
pudendas são para estar na boca, numa intimidade esquisita
que infunde medo, um chá de medo, uma infusão na
intimidade).
ferve-se a glicerina, vê-se nos filmes franceses como
construir sabão em casa, panelas grotescas, o estanho e o
alumínio todos sujos de uma gordura, por fora, nos
fogões a lenha, o trabalho todo, o suplício todo da
gordura purificada ao lume só para lavar o rosto,
tê-lo perfumado e pronto para a eventualidade remota
de oferecerem beijos ao jeito de intimidade
com ou sem
o sexo na boca.
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