7.1.15

Andróide

viveria num sítio urbanizado mas não
em excesso e operaria uma editora de
poesia (em minúscula) e iria aos cafés e
às tascas porque a vida, ao fim e ao
cabo, é
ir a cafés e a tascas e a boticas e a
mini-mercados e a restaurantes e
a casas de pasto. rodear-me-ia de velhos
e de coisas antigas, ouviria ópera no
barbeiro quando, de seis em seis meses,
fosse sendo altura de cortar o cabelo.
"não mexa na barba, um editor de
poesia deve ter barba." o barbeiro
concordaria, "todos os homens deveriam
ter barba", e baptizar-me-ia com
pó-de-talco, o meu crânio um
rabo assado de bebé, mas noutra
extremidade do corpo; sacudiria
os cabelos e as palavras do mesmo
modo que as mulheres sacudiam o
cascabulho dos pêros do seu colo
para o chão e,  de seguida, para dentro das
bocas dos animais.
habitar um lado de vida mais perto do
que importa, preferencialmente com dinheiro
bastante para tabaco e café.

2.1.15

elefante marinho

com as unhas cortadas que deixei pelo
chão e no lixo ao longo dos anos
vamos construir um navio uma nau
e morrer desidratados no meio do
oceano atlântico os corpos secos ao
sol no convés comida para alba-
trozes e gaivotas os olhos vazios
sonhando com papagaios-do-mar
e baleias-de-bossa cantando para
adormecer os seus recém-nascidos.

25.11.14

Santo Agostinho

ter tempo nas mãos e tantos livros acumulados para ler, a envelhecerem
ao jeito de fruta, de roupa, mas não fazer nada com o tempo porque o tempo
afinal
inexistente, uma invenção dos homens para explicar mais ou menos as
deslocações no espaço. não fazer nada com as mãos na falta de uma
inclinação mais prática e física, tamborilar os dedos nos tampos das
mesas dos cafés e das tascas, ler dá trabalho, escrever dá trabalho
embora não devessem. observar o movimento dos caracóis e das
lesmas nos degraus das escadas da casa, era tudo mais fácil se
fosse mulher, se tivesse amigos, se não tivesse feito carraças
esvairem-se em sangue, espetando-lhes alfinetes quando era criança.
ter uma garrafa de vinho vazia para me queixar às pessoas de não
ter dinheiro sequer para vinho barato e ter o Howlin' Wolf
incessantemente a tocar num gira-discos, o vinil riscado de modo
a que seja mais literário fazer essas analogias estúpidas com a vida.

29.10.14

termo

a ternura é um barco que apodrece sem uso junto a uma casa
abandonada numa planície; ridículo sem mar nem água por perto
só a humidade do ar destruindo a madeira e os miúdos correndo
no meio dos escombros, partindo unhas, imaginando oceanos
imensos nos campos de feno, um mar amarelo, muito mijo
ardendo pelos olhos fora. a ternura é uma flor teimosa que
insiste na música da madeira a decompor-se do barco, é um
medicamento contra infecções urinárias a rir-se na cara da
medicina ocidental.
a ternura é as mãos dos poetas velhos a levar cálices de aguardente
à boca, a falar de barcos onde não era suposto que houvessem
barcos, a lembrarem-se de homens e de mulheres que foram
como objectos e decidiram um dia levar as suas metáforas para
outro país menos complicado.

3.10.14

da falta do dadaísmo

os anti-depressivos em cima da mesa de cabeceira e
alguns nas gavetas das cómodas, todos fora do prazo
de validade, como algumas vidas, como em alguns momentos
qualquer uma das vidas, para algumas pessoas,
existir-se aqui, pensar-se no facto de se existir aqui,
as lâminas de barbear descartáveis da wilkinson a
ganhar ferrugem no armário dos medicamentos,
sobre o lavatório, na casa de banho, os pássaros nas
árvores e os gatos à espera, no passeio, mas sempre
os anti-depressivos já a não fazer sentido nenhum, frascos
tombados e meio cheios, máquinas de pastilhas elásticas,
super-heróis de banda desenhada dos anos 60,
kitsch e ridículos, fotografias de mulheres que vêm com
as molduras, girafas no jardim zoológico, gorilas,
leopardos, todos mortos antes de tempo, a não saber
lidar com o fim dos prazos de validade, em cativeiro.
ninguém com quem falar, o telefone fora do descanso
ainda que já ninguém pegue sequer num telefone
só uma ou outra amiga, quando se lhes acaba o saldo
no telemóvel. em casa de avôs há caçadeiras nas paredes
mas aqui só há remédios e tentativas domésticas,
farmacológicas mas sempre domésticas, de panaceia.

28.9.14

salomé

pedi à minha mãe que dançasse, mas só se
queixou da idade, da velhice.
a minha mãe parecia uma maçã reineta
muito prestes a soltar-se de uma árvore.
num desses dias em que se devia dizer
"amo-te", mas só nos saem folhas de jornal.

17/IX

as mulheres a colher silvas como se fossem
tesouros, ferindo as mãos, pensam no outono
e em trompetes com surdina, desafinados,
na boca seca, nos lábios de homens escuros,
cinzentos, desiludidos, em bares velhos as
mulheres colhendo silvas como quem colhe
palavras que arranham e cortam e magoam.

15.7.14

zoologia

ouçamos os pavões caindo do tecto no chão da sala,
sobre o tapete, partindo os pescoços, cantando,
morrendo. ouçamo-los quebrando nozes com os
bicos, quando é o tempo, os crâneos esmagados
por automóveis na praça, como os crâneos esmagados
por cascos de cavalos, nos sonhos de infância, os
olhos vítreos só já lugares para moscas e pó e formigas
e derrames sanguineos dizendo "no sopé dos montes,
onde o vento é rejeitado pelos muros de pedra e terra,
as janelas não fecham e ouve-se o mar aqui fechado
dentro, como uma alma penada, como alguém que
preferiu ficar em vez de aceitar que se morre"

os pavões cantando, morrendo, caindo do tecto
como insectos mal se instala o verão e o calor no
sopé das montanhas, nas casas caindo de humidade
e de barulho do mar, resistindo sabe deus como
ao vento.

14.7.14

alimentação

j.

ela também precisa de comer ainda que não da mesma
forma pois o amor dos alimentos é maior contra os seus
lábios sobre a sua língua - é 490 vezes maior, é setenta
vezes sete maior
porque é para sempre

ela precisa de comer, de se alimentar, de se manter viva,
mantemo-nos vivos uns pelos outros e por vezes por nós
próprios também e os frutos na boca e na língua e os
dentes nos frutos (nunca os frutos nos dentes) e os dedos
nos frutos, nas cascas, que cheiro a laranja é este? quando
entravas na sala, as gengivas carregadas de frutos em pequena
e agora em maior também, cuspindo os caroços das ameixas
para a mão, apertando-os nos lábios, empurrando-os com
a língua num beijo inverso, a fruta amando-te mas eu
490 vezes, 70x7, para sempre.

8.7.14

dead man

dos suicídios lentos e dos para-suicídios já não
havia muito mais a dizer, por isso substituiam-
-se as palavras por répteis e por pedaços de tecido -
roupa que envelheceu, calças que já não servem -
e os psicólogos não entendem nem de répteis nem
de palavras por isso ficam silenciosos finalmente,
sozinhos a pensar em glandes e em clitóris e
em chupetas na boca de adultos com fraldas.
os cavalos partem em filas em direcção a um
suicídio lento, para serem cola nos trabalhos manuais
dos miúdos da escola primária. os poetas estão todos
doentes e preferem falar de cavalos que de suicídios.

12.6.14

dos vícios

este é o tempo para partir espelhos, para louça feia nas
paredes, para actividades, para palavras menos capazes,
este é o tempo em que se vai a pé para casa e se
pensa, entre aspas, "ao menos há uma casa para onde
voltar", ainda que a casa para onde se volta seja só
um casulo muito remoto, um contexto de tijolos e
cimento e ferro e tubos de metal ao jeito de veias
e mofo e musgo e bolor e fungos ao jeito de uma
doença, um cancro. este é o tempo em que a casa
já não existe, foi-se embora nas mãos resolutas das
pessoas que ainda queremos, que ainda amamos, ainda
que no coração - na alma - que imaginamos na cabeça
nos tentemos convencer "amámos".
este é também o tempo em que nos falham os isqueiros,
em que as pessoas se esquecem dos nossos nomes. é
uma época para chorar, para nos esvairmos, desolados, em
lágrimas acres: eis que dói não saberem o nosso nome,
dói de um modo tão profundo, de uma maneira tão
incisiva. nesta hora plantámos patas de coelho nas fazendas
dos nossos avós e não germinou coisa nenhuma; o
nosso esforço foi em vão. na miséria das casas (não
lares, casas-somente) ainda lamentamos a louça feia
pendurada nas paredes, os espelhos partidos, as fotografias
por onde passaram décadas de pó e se foram esquecendo
sobre as cómodas, recordações falsas de pessoas e de
coelhos que foram acabando, que foram deixando de
ser viáveis biologicamente e se tornaram só louça
muito feia, memórias muito inúteis para encher poemas.

21.5.14

nas notícias falavam da gripe das aves

fala-me de dinheiro. fala-me antes de dinheiro. amanhã tens tempo
de no trabalho dizeres "fodi o poeta". amanhã é sempre tempo
disso. "o poeta falou-me de portas de mogno nas casas
amarelas onde se fazia turismo de habitação mas que estavam
sempre vazias. o poeta atrapalhou-se com a piça, não sabia o que
fazer com ela, nas mãos, tive de a guiar como se guia um cão
cego nos passeios, tive de o guiar e de o meter lá dentro e o
raio do poeta estava só semi-erecto, mas, olha, foi o que se
arranjou, ele estava ali e eu estava ali e fodemos. ele pediu-me
que lhe falasse de dinheiro em vez de me abraçar e fumou dois
cigarros antes de voltar para a cama, entretanto fiquei com os
pés gelados."

o poeta está só a olhar para a rua e a pensar que merda é
que está a fazer à sua vida, tu com os pés a esfriar, na
cama, que a casa do poeta é miserável e ele nem muda a roupa
da cama porque raramente a usa. o poeta já não abraça, o poeta
já não se irrita porque as mulheres fumam um cigarro no fim
de foder -- vai ele próprio para sala, no escuro, sem saber
o que fazer às pernas, tão parvas, tão imbecis, as pernas,
tão teimosas, a querer acreditar no amor com maiúscula, "tens
ali uma mulher na cama a precisar de ser abraçada", mas ao poeta
não há quem o abrace e portanto também já deixou de abraçar
quem precisa de o ser. nu à janela e com a vida a ser uma merda,
ninguém que lhe fale de dinheiro, que lhe explique "o dinheiro funciona
assim", tão mau na cama, tão reles, a piça ainda teimosa no amor
maiusculizado, a miudinha que veio aqui parar a casa porque
queria foder com o poeta. tu, na cama, a roer as unhas, com o
candeeiro ligado na mesa-de-cabeceira, ao lado do Rimbaud
e do Fernando Pessoa e do Joyce e do Vian. mas o amor
com maiúscula já longe de onde a luz do candeeiro chega,
já noutro país, a fazer compras em lojas de selos e de botões de punho.

ninguém explica ao poeta como funciona o dinheiro nem a piça
e precisa que lha guiem, às vezes, no meio das pernas, ele de olhos
fechados a tentar imaginar como será o amor ou porque é que a
rapariga não chega ou então talvez seja do tabaco envelhecendo as
artérias muito antes de ser tempo disso ou seja só
-- deus nos livre! --
falta de vontade.

16.5.14

tinteiro de impressora

noutro dia, talvez, hoje já não. tirar esta
folha do caderno, lambê-la, pôr-ta na mão,
"eis a minha boca, a humidade porca da minha
saliva, a verdade bacteriana que se me solta
dos dentes. este sou eu e quero que me entres
pelo corpo; onde não nos conhecemos preciso de
ti, ou, na idade, na beleza das construções
poéticas, num suposto domínio da linguagem,
preciso-te." preciso de ti, quero escolher-te,
arrancar esta folha que no outro axioma
tem um poema com o teu nome, tem palavras
desperdiçadas no discurso da ideia das tuas
mãos. dou-te as mãos mas não esta folha,
só que a intenção das minhas mãos perde-se
sem o papel. um dia trago-te centeio para
um pão, mas hoje noto que já sabes no silêncio.

mercy fuck

queima-me os ossos com ácido
de modo a que os possas
morder - este poema é um
osso para alimentar de medula
os meninos subnutridos da
áfrica subsaariana.
é amarelo o teu nome, que mágoa, há
pessoas que assentam assim nos nomes e
não cabem, como tu, com o teu corpo
a sair, a boca primeiro,
procurando, pedindo "água, mel, beijos",
o teu cabelo queimando, ardendo, em
argolas, cachos de anéis de queratina,
pequena, a cheirar a sangue e a nervos
e a cartilagens e a bichos vivos. só
lamentas o teu nome, "quer dizer amarelo"
como ovos e uma luz solar nos desenhos
das crianças.

7.5.14

arquimedes

comerias iogurtes gregos no processo da aritmética através do
qual concluías o conhecimento que hoje estudamos na
escola? penso em ti mais na salada com iogurte no centro
comercial do que velho e escuro lambendo a matemática.

vindimas

chave de água parada, um melro
roendo um pedaço de fígado,
a minha boca mordendo as tuas
mamas gigantescas à noite, as
mãos tacteando e felizmente tão
fáceis de encontrar no escuro,
enormes, quentes, rijas como montanhas
de carne luz cartilagem nervos sexo

a cheirar a pele e a líquidos
congelados
dentro de uma bateria,
com o ácido sulfúrico, a minha
boca poluída de sangue e de vontade,
a língua amando amassando as tuas mamas
tão grandes, no escuro, um pombo doente
comendo um pedaço de fígado no chão.

3.5.14

pulmão mecânico

dos primeiros sinais de velhice, felipa, é sentar-me a uma
mesa e irritar-me porque os miúdos a deixaram imunda.
a imundície irrita as pessoas envelhecidas. dos primeiros
sinais da idade adulta é esconder o isqueiro, para que
não nos peçam lume ou tabaco, "só tenho estes até
ao fim da semana", "já tive que pedir este, sabe..."
é nem notar que o mundo está a ir para uma
figura geométrica muito absurda, um poliedro de fumo.

arrancar as asas de um besouro

as tenazes penduradas nas paredes e as crianças
dormindo nuas no chão, em frente à lareira, a
sonhar com lagostas de cerâmica, feias, no dia
de anos de um amigo.
se menstruadas, as mulheres fodiam, entregavam-se,
riam-se, cantavam músicas num segredo,
"peido de cona por causa do ar, paredes
infladas de ar no vácuo, processos pneumáticos",
assim cantavam, nos quartos, enquanto os homens
apenas objectos, pois durante as fodas os homens
só estátuas, adereços, paisagens paradas e estáticas,
pensando em pássaros, pensando em recibos e em
tenazes, jamais cantando através do olho singular
da piça, por onde escoa sémen mas também mijo.
as bocas dos homens respirando sôfregas como as
das crianças dormindo em frente à lareira, as
portas todas escancaradas sem medo de que os
outros escutem o remorso da intimidade, a
engrenagem dos corpos desenferrujando poesia e
música como se um rio de óleo nas dobradiças,
como se o amor ocasionalmente fosse um advérbio
de modo, como se fosse uma paisagem descrita
num parágrafo de um livro datado de mil oitocentos
e oitenta e três. nas paredes as tenazes e a
tinta escamando, as bocas das crianças respirando o
chumbo, o amianto, a canalização dos corpos já
fraca, tão cedo, no dia de anos de um amigo,
cheios de sangue e com as mãos a explodir de intimidade.

28.4.14

ervas para pães ázimos

a minha mãe é um esqueleto conduzindo uma mota que
devia estar num museu
no méxico em estradas onde ninguém passa à excepção
dos mortos e dos velhos
pois os velhos são quase mortos já vestem a roupa
de quem come à mesa dos que faleceram já falam
essa língua silenciosa com a boca inchada de ar
escaravelhos terra água vermes
a minha mãe pára pelo caminho e cozinha tijolos
em fornos e diz
«construam fábricas e abandonem-nas passados oitenta
anos para que no futuro os vivos recordem as
vossas palavras e os vossos nomes.»
e a minha mãe come as raparigas bonitas no
pó e a mota devia estar num museu mas move-se
o motor ainda a empurra na doença e no amarelo
que não é a cor preferida da minha mãe mas
era a cor preferida da mãe da minha mãe e a
minha mãe escreve um poema de dentes de vermes
e procura a sua mãe que mesmo viva já via
o que os mortos vêem já escutava os mortos
quando o padrasto da minha mãe junto das margens
do rio tejo em cacilhas se acometia ou pelo menos
uma pequena percentagem de si uma âncora de
cobre enterrada no forno da mãe da minha mãe
para cozinhar tijolos de cancro de ossos de nervos
e a minha mãe nos cactos com um poncho sem
saber como beber o álcool nos copos baços.