14.4.15
olhos
ter de ver os bandos de aves migratórias
no céu a ir para longe e não serem eléctricos
serem ao invés orgânicos; o que é orgânico
é mais complicado de entender e quando
aberto causa asco e náusea no cheiro e
nas colorações; nenhuma ave migratória
pode levar gritos do coração até onde
quer que estejas e apesar de tudo o
coração guincha muito muito alto mas
ninguém ouve pois apesar de tudo é
orgânico; se pudesse seguir nas costas de
uma ave migratória em bando com as
outras até ao país de verão onde te
encontras incandescendente de pedaços
orgânicos no século, à distância
lamentavelmente
seria isso que faria até se calar nas tuas
mãos no meio da música eléctrica da
tua pele dos teus lábios do teu corpo não-
-triste; mas as aves chegam-te sozinhas e
não há meio de te enviar isto porque já
ninguém escreve sequer cartas.
13.4.15
espectógrafo
numa casa velha, onde os homens penduram casacos ao fim do dia.
o meu amigo chegou com alface para a salada, comemos
massa com carne frita, bebemos vinho branco porque se me
tinha acabado o tinto, com um certo humor triste fizemos pouco
da situação, "vinho branco é a coisa mais parecida com vinho,
que existe", mas despachámos a garrafa.
ouvimos música ligeira depois do jantar enquanto víamos
os carros e as pessoas, lá em baixo, sentados na varanda;
embora víssemos sempre mais os carros do que as pessoas,
os carros vêem-se melhor ao longe, anunciam-se melhor, num
movimento de luz e som e metal e plástico e vidro e borracha
a respirar poluição nos pulmões;
lemos dois ou três números de Dylan Dog, do Tiziano Sclavi,
e fomos tão burgueses, tão novos-ricos, a conversar sobre banda-desenhada
europeia; depois concluímos que a europa nos cansava imenso e
dissémos que o Dylan Dog era inspirado no Rupert Everett,
que eventualmente protagonizou o filme Dellamorte Dellamore, também
baseado num romance homónimo do Sclavi, falámos de coisas
inócuas mas que nos pareciam cheias de verdade e de força, como
"toda a gente devia ver esse filme e deixar-se mas é de coisas";
"é um dos melhores filmes dos anos 90";
e etc.
perguntou-me se sabia que o Rupert Everett era homossexual e respondi que
sim, quis saber se ele achava que tinha sido difícil para ele fazer
aquelas cenas com a Anna Falchi e disse-me, roçando a indignação,
que "por mais paneleiro que se seja, a Anna Falchi é a Anna Falchi, foda-se!"
depois ficámos calados e acendemos um cigarro, os carros rugiam
na rua e as pessoas eram um sussurro inaudível de órgãos e oxigénio,
irrelevantes, minúsculas; e nós os dois a ter de lidar com a tristeza
aguda e imensa de, por mais heterossexuais que fôssemos, nunca podermos
ser o Rupert Everett no Dellamorte Dellamore, de nunca termos
visto a Anna Falchi nua, em pessoa, de nunca a termos podido beijar.
7.4.15
sustentáculo
os outros possam ver o título cavernoso, autotélico, escondido,
com as pernas cruzadas e a certeza de vir a arranjar uma
mulher destas práticas, com cursos de engenharia e relações
públicas e psicologia e matemática para me conduzir na
minha característica absurda de não ter carta nem carro
nem curso superior nem emprego e de não pretender nada
disso;
fingir apenas um fulgor uma indignação porque "a sociedade
está tão mal organizada", chorar no colo de uma mulher, cheirar
o colo de uma mulher e esperar que organize tudo para mim,
que me sustente o ócio, forçar a vergonha de uma vida em
vão para outro sítio recôndito e presumir que esta poesia
é tão boa que qualquer mulher ou qualquer homem teriam
tanta sorte em me amar em me proteger, prometer coisas
que nunca poderei cumprir e crescer inversamente, o fígado
nunca mais colapsa de tantos anos de álcool, os pulmões
nunca mais adoecidos, negros, raquíticos;
contar que se possa amar também um empregado de uma
pizzaria de franchise internacional que receba o ordenado
mínimo e eventualmente deixe de escrever por completo.
26.3.15
meu pai costumava chamar-me hard reset
Archie Bronson Outfit e
sentia-me tão pós-moderna
tão alt lit
tão avant pop
com o dildo entranhado
na cona
e a outra mão tirando fotografias
nua
esperando que
algum vizinho
noutro andar
distante
com uma mão
segurando a cortina
da janela e a outra
apertando a piça
se viesse em meio
minuto.
25.3.15
gutural
pois ainda não é hora
na ficção do tempo
porque a ficção
bem arquitecturada
bem construída do
tempo acaba por
nunca ser inteiramente
nossa e tantas
vezes mais valia
dormir esperar
por quem vale a
pena e até lá
só no quarto de
luz acesa sob
os cobertores
fechar os olhos
morrer enquanto
viver não é assim
tão importante
hebraica
atravessaste um degrau, uma idade, uma porta dessas
casas abandonadas cuja vida permanece no vento e
nas mudanças diárias da luz do sol nas paredes e no
soalho;
atravessámos uma morte, vê: devíamos ter morrido,
devíamos ter dançado mas não, nem morremos nem
dançámos, tomámos comprimidos, fizémos tatuagens,
operações aos olhos, amámos, fingimos ter conjugado
uma gramática de amor, sobretudo, tirámos fotografias
dos nossos corpos em descanso e chegámos um
ao outro em silêncio e em segredo quando nunca
devíamos ter chegado, devíamos só ter adormecido,
ter partido para muito longe e ter esquecido
a vida um do outro
para que não nos magoemos mais nas lâminas no sangue
no cheiro a relva dos cabelos cortados da sujidade
dos corpos que a água não lava porque a água
já não existe como existia dantes onde um
abraço longo
uma estrela acesa na garganta quando falávamos embora
agora
devêssemos ter morrido como lagartixas a quem se calca
a cabeça contra o cimento no calor da primavera
devíamos ter calcado a cabeça um do outro contra o
chão contra o cimento para que não doesse
termos de continuar vivos termos de
fingir
comer a morte um do outro sem apetite
enroscar lâmpadas nos casquilhos ter de aturar os outros
dando conselhos ter de mentir ter de omitir ter de fingir
ligar mas pensar apenas no movimento helicoidal dos
filamentos das lâmpadas e continuar
a fazer generalizações continuar a odiar
pessoas continuar
a cometer os mesmos erros sempre
e dormir longe de toda a gente quase acreditando
que é melhor assim.
21.3.15
publicar título
haverá pão suficiente
na despensa para que
esperem à mesa durante
os meses necessários
e não morram de fome
contar-se-ão aves no
céu e peixes no mar
e histórias num lugar
intermédio onde nem
os pássaros ou os
peixes mexem ou
habitam
contar-se-ão contas de
rosários antigos e ainda
pesados das velhas que
foram suas donas noutros
anos longínquos sem se
saber já como rezar
escrever-se-á no chão com
a cana verde
há-de se esperar uma eternidade
por quem demora
convém sempre saber esperar
por quem demora
pois o pão dura na despensa
para que se não morra
à fome.
15.2.15
factura simplificada
precisava de um manual para fazer amigos. de um
coração que se aquecesse dentro de água, agora
que é inverno e chove e as imagens se repetem,
e são só as árvores na vergonha da nudez, o
céu escuro, o céu da boca ferido, as pessoas
a compensar a falta de roupa das árvores. as
pessoas a compensar, sempre a compensar. um cora-
ção que aqueça dentro da água do corpo, que
aqueça a água do corpo, que ferva na água,
que mate os peixes e as tartarugas e as
estrelas-do-mar que vivem na água do corpo,
animais que lidam mal com temperaturas
elevadas. e quando falar, direi peixes e
tartarugas e estrelas-do-mar mortos, cadáveres
do calor do coração. e os amigos
terão o que comer.
8.1.15
dentes
abre devagar a boca como se te
interessasse beijar-me, como se
acreditasses que é possível que
nos beijemos apesar de tantos
quilómetros, de tanto ar com coisas
pelo meio. quando te lembrares
de mim envia-me uma árvore,
dá-lhe um nome e envia-ma pelo
correio, com aviso de recepção,
enche-a de palavras e de gestos
ternos. pendura-me uma centopeia
na orelha quando falares, muitas
vezes lembro-me de ti de um modo
esquisito, como se o amor tivesse
acabado, muitas vezes somos
um par de animais demasiado
humanos para nos ralarmos com
qualquer coisa mais do que só
a fricção geométrica dos corpos, por
vezes bebemos demais e fingimos
de forma insuficiente que isso
chega. as minhas mãos não
chegam, não atravessam quilómetros,
não rasgam o silêncio quando a tua
boca ri muito alto longe daqui.
desenhei-te um cão numa folha
quadriculada, deve chegar um dia destes.
7.1.15
Andróide
viveria num sítio urbanizado mas não
em excesso e operaria uma editora de
poesia (em minúscula) e iria aos cafés e
às tascas porque a vida, ao fim e ao
cabo, é
ir a cafés e a tascas e a boticas e a
mini-mercados e a restaurantes e
a casas de pasto. rodear-me-ia de velhos
e de coisas antigas, ouviria ópera no
barbeiro quando, de seis em seis meses,
fosse sendo altura de cortar o cabelo.
"não mexa na barba, um editor de
poesia deve ter barba." o barbeiro
concordaria, "todos os homens deveriam
ter barba", e baptizar-me-ia com
pó-de-talco, o meu crânio um
rabo assado de bebé, mas noutra
extremidade do corpo; sacudiria
os cabelos e as palavras do mesmo
modo que as mulheres sacudiam o
cascabulho dos pêros do seu colo
para o chão e, de seguida, para dentro das
bocas dos animais.
habitar um lado de vida mais perto do
que importa, preferencialmente com dinheiro
bastante para tabaco e café.
2.1.15
elefante marinho
com as unhas cortadas que deixei pelo
chão e no lixo ao longo dos anos
vamos construir um navio uma nau
e morrer desidratados no meio do
oceano atlântico os corpos secos ao
sol no convés comida para alba-
trozes e gaivotas os olhos vazios
sonhando com papagaios-do-mar
e baleias-de-bossa cantando para
adormecer os seus recém-nascidos.
25.11.14
Santo Agostinho
ao jeito de fruta, de roupa, mas não fazer nada com o tempo porque o tempo
afinal
inexistente, uma invenção dos homens para explicar mais ou menos as
deslocações no espaço. não fazer nada com as mãos na falta de uma
inclinação mais prática e física, tamborilar os dedos nos tampos das
mesas dos cafés e das tascas, ler dá trabalho, escrever dá trabalho
embora não devessem. observar o movimento dos caracóis e das
lesmas nos degraus das escadas da casa, era tudo mais fácil se
fosse mulher, se tivesse amigos, se não tivesse feito carraças
esvairem-se em sangue, espetando-lhes alfinetes quando era criança.
ter uma garrafa de vinho vazia para me queixar às pessoas de não
ter dinheiro sequer para vinho barato e ter o Howlin' Wolf
incessantemente a tocar num gira-discos, o vinil riscado de modo
a que seja mais literário fazer essas analogias estúpidas com a vida.
29.10.14
termo
abandonada numa planície; ridículo sem mar nem água por perto
só a humidade do ar destruindo a madeira e os miúdos correndo
no meio dos escombros, partindo unhas, imaginando oceanos
imensos nos campos de feno, um mar amarelo, muito mijo
ardendo pelos olhos fora. a ternura é uma flor teimosa que
insiste na música da madeira a decompor-se do barco, é um
medicamento contra infecções urinárias a rir-se na cara da
medicina ocidental.
a ternura é as mãos dos poetas velhos a levar cálices de aguardente
à boca, a falar de barcos onde não era suposto que houvessem
barcos, a lembrarem-se de homens e de mulheres que foram
como objectos e decidiram um dia levar as suas metáforas para
outro país menos complicado.
3.10.14
da falta do dadaísmo
alguns nas gavetas das cómodas, todos fora do prazo
de validade, como algumas vidas, como em alguns momentos
qualquer uma das vidas, para algumas pessoas,
existir-se aqui, pensar-se no facto de se existir aqui,
as lâminas de barbear descartáveis da wilkinson a
ganhar ferrugem no armário dos medicamentos,
sobre o lavatório, na casa de banho, os pássaros nas
árvores e os gatos à espera, no passeio, mas sempre
os anti-depressivos já a não fazer sentido nenhum, frascos
tombados e meio cheios, máquinas de pastilhas elásticas,
super-heróis de banda desenhada dos anos 60,
kitsch e ridículos, fotografias de mulheres que vêm com
as molduras, girafas no jardim zoológico, gorilas,
leopardos, todos mortos antes de tempo, a não saber
lidar com o fim dos prazos de validade, em cativeiro.
ninguém com quem falar, o telefone fora do descanso
ainda que já ninguém pegue sequer num telefone
só uma ou outra amiga, quando se lhes acaba o saldo
no telemóvel. em casa de avôs há caçadeiras nas paredes
mas aqui só há remédios e tentativas domésticas,
farmacológicas mas sempre domésticas, de panaceia.
28.9.14
salomé
queixou da idade, da velhice.
a minha mãe parecia uma maçã reineta
muito prestes a soltar-se de uma árvore.
num desses dias em que se devia dizer
"amo-te", mas só nos saem folhas de jornal.
17/IX
tesouros, ferindo as mãos, pensam no outono
e em trompetes com surdina, desafinados,
na boca seca, nos lábios de homens escuros,
cinzentos, desiludidos, em bares velhos as
mulheres colhendo silvas como quem colhe
palavras que arranham e cortam e magoam.
15.7.14
zoologia
sobre o tapete, partindo os pescoços, cantando,
morrendo. ouçamo-los quebrando nozes com os
bicos, quando é o tempo, os crâneos esmagados
por automóveis na praça, como os crâneos esmagados
por cascos de cavalos, nos sonhos de infância, os
olhos vítreos só já lugares para moscas e pó e formigas
e derrames sanguineos dizendo "no sopé dos montes,
onde o vento é rejeitado pelos muros de pedra e terra,
as janelas não fecham e ouve-se o mar aqui fechado
dentro, como uma alma penada, como alguém que
preferiu ficar em vez de aceitar que se morre"
os pavões cantando, morrendo, caindo do tecto
como insectos mal se instala o verão e o calor no
sopé das montanhas, nas casas caindo de humidade
e de barulho do mar, resistindo sabe deus como
ao vento.
14.7.14
alimentação
ela também precisa de comer ainda que não da mesma
forma pois o amor dos alimentos é maior contra os seus
lábios sobre a sua língua - é 490 vezes maior, é setenta
vezes sete maior
porque é para sempre
ela precisa de comer, de se alimentar, de se manter viva,
mantemo-nos vivos uns pelos outros e por vezes por nós
próprios também e os frutos na boca e na língua e os
dentes nos frutos (nunca os frutos nos dentes) e os dedos
nos frutos, nas cascas, que cheiro a laranja é este? quando
entravas na sala, as gengivas carregadas de frutos em pequena
e agora em maior também, cuspindo os caroços das ameixas
para a mão, apertando-os nos lábios, empurrando-os com
a língua num beijo inverso, a fruta amando-te mas eu
490 vezes, 70x7, para sempre.
8.7.14
dead man
havia muito mais a dizer, por isso substituiam-
-se as palavras por répteis e por pedaços de tecido -
roupa que envelheceu, calças que já não servem -
e os psicólogos não entendem nem de répteis nem
de palavras por isso ficam silenciosos finalmente,
sozinhos a pensar em glandes e em clitóris e
em chupetas na boca de adultos com fraldas.
os cavalos partem em filas em direcção a um
suicídio lento, para serem cola nos trabalhos manuais
dos miúdos da escola primária. os poetas estão todos
doentes e preferem falar de cavalos que de suicídios.
12.6.14
dos vícios
paredes, para actividades, para palavras menos capazes,
este é o tempo em que se vai a pé para casa e se
pensa, entre aspas, "ao menos há uma casa para onde
voltar", ainda que a casa para onde se volta seja só
um casulo muito remoto, um contexto de tijolos e
cimento e ferro e tubos de metal ao jeito de veias
e mofo e musgo e bolor e fungos ao jeito de uma
doença, um cancro. este é o tempo em que a casa
já não existe, foi-se embora nas mãos resolutas das
pessoas que ainda queremos, que ainda amamos, ainda
que no coração - na alma - que imaginamos na cabeça
nos tentemos convencer "amámos".
este é também o tempo em que nos falham os isqueiros,
em que as pessoas se esquecem dos nossos nomes. é
uma época para chorar, para nos esvairmos, desolados, em
lágrimas acres: eis que dói não saberem o nosso nome,
dói de um modo tão profundo, de uma maneira tão
incisiva. nesta hora plantámos patas de coelho nas fazendas
dos nossos avós e não germinou coisa nenhuma; o
nosso esforço foi em vão. na miséria das casas (não
lares, casas-somente) ainda lamentamos a louça feia
pendurada nas paredes, os espelhos partidos, as fotografias
por onde passaram décadas de pó e se foram esquecendo
sobre as cómodas, recordações falsas de pessoas e de
coelhos que foram acabando, que foram deixando de
ser viáveis biologicamente e se tornaram só louça
muito feia, memórias muito inúteis para encher poemas.