vedo as janelas nos dias de tempestade
quando dizem no noticiário expressões como
"alerta vermelho"
mas nunca aprendi a vedar o coração
nunca vou aprender como
14.2.16
?
durmo como uma pedra que cai
e caminho como uma arma descarregada;
doo dentro das noites como uma arma que chora,
escorrego como um sono que cai.
falo como um húmus que cola as linhas do poema
anoiteço como uma costura que ama tudo
o que não devia. durmo como um peixe que
arde, sonho como uma mulher que sangra.
9.2.16
23.1.16
retroescavadora
amor deslocado. nunca penteei o cabelo, algumas
pessoas dizem-me que gostam dele assim.
não confio nas pessoas, não tomo por verdadeiras as
coisas que me dizem. a verdade é o tabaco a
fazer com que as engrenagens da minha alma
se movam, ainda que à custa da destruição
e da morte do corpo. sou uma flor pisada e
magoada de amor desperdiçado, vermelha e preta,
encarnada e negra; no meu sangue há
óleo e álcool, há corantes e conservantes,
há formaldeído e cianeto de hidrogénio.
sou eu quem fala, quem ri sozinho, doente, no
meio das mulheres nuas, na casa de putas;
sou eu quem grita, quem fecha a porta do
texto às palavras que, de flor, não têm
nada. vejo-me uma flor vermelha, preta, um
peixe prateado reflectindo relva e ar.
21.1.16
palma das mãos à noite
talvez apareça uma outra mulher em cuja luz consiga descobrir o
rosto, também destruída de tanto reconstruir o coração aos
arrastões, violentamente como um pombo batendo no vidro de um
carro. talvez um dia haja uma falésia, um precipício no lugar
da dor de cabeça e alguma casa possa assemelhar-se a um lar,
alguma cama abrigue sob a coberta as mãos que buscam.
haja sempre mãos que no baixo ventre busquem.
18.1.16
k
fui de encontro às colmeias e colhi cera e mel
e passei pelas garotas de dezasseis anos rente
ao rio, rindo e vergastando as pernas umas
das outras com vides secas (doem menos, as
vides secas). não tenho bocas para alimentar, em
casa, um pássaro, um peixe, bichos-de-conta
que às vezes nascem do soalho. nas colmeias
há abelhas desconcertadas com o fumo do tabaco,
fugindo, estrelas cadentes pretas e amarelas,
procurando no intervalo das vides as pernas das
raparigas de dezasseis anos.
20.12.15
não sei se és tu nas fotografias que
às vezes aparecem, que outras pessoas
me trazem sem querer
quem me dera que fosses
quem me dera que não fosses
não sei onde estás ou onde tocas mas
procuro-te na improbabilidade
das fotografias dos outros como
se ainda fôssemos alguma coisa
como se ainda pudéssemos ser
qualquer coisa.
13.12.15
electrónica
debaixo das escadas com o tempo todo para não fazer
nada a atirar pedras de carvão para dentro de vasos
sem terra a pensar nos incêndios que se atearam há
tantos meses a pensar na morte de pavões dentro de
contentores uns guinchos tristes de mamífero nos contentores
aves soando a mamíferos por causa das úlceras e da
morte
é tão mais fácil falar da morte tão mais simples tão mais
bonito no contexto poético da depressão que todos procuram
ler
a minha filha é livre de morrer abraçada a um pavão num
contentor de ser encontrada pelos homens às cinco da manhã
no meio de lingerie usada e jornais de há tantos meses
a minha filha nua
um copo de água
uma aspirina
o lado esquerdo
do corpo
todo
apanhado
debaixo das escadas com o tempo todo para não fazer
nada para além de atirar pedras de carvão contra os pavões
rir muito alto bater com as mãos nas paredes cantar
coisas de que já ninguém se lembra
inventar histórias às velhas e acreditar em todas as mentiras
que se dizem
a minha filha na água
com uma aspirina e os
pavões
chorando petróleo
guinchando
na solidão
no tempo
no lugar
no modo
9.12.15
cabo formado por uma elevada montanha
o café está queimado na língua e não
acalma nem abafa o sabor
do tabaco. é só café, só um modo
cansado de falar das coisas,
das feições da filha da
cigana tão iguais às
da filha da
outra. o café queimado reúne-nos
a todos, o tabaco,
a vida a ir para esta merda.
8.12.15
cattleya mossiae
num lugar onde te lembres do pó que comemos
mas também das laranjas
a que chegavas a cheirar na escola e à conta
das quais os miúdos te apontavam e riam
sem que soubessem
pois ninguém sabia ainda
a música luminosa que te nasceria dos olhos
e das mãos e das palavras
ainda que hoje sejam ditas numa outra direcção
num lugar onde caminhes sozinha e já não te
veja nem reflectida nas costas de uma colher de
chá
e não me ouças por necessidade de esconder os
ouvidos à angústia
sempre num lugar onde o amor na água com os peixes
desorientados
e as minhas unhas arranhem areia no fundo do mar
em busca de laranjas ou de palavras que ainda cheguem
até ti mesmo que ténues
farrapos de uma voz animal
com que nos embalámos tantos dias dentro de tantos meses
olha as feridas abertas tão férteis contra os vidros
num lugar onde a memória não se apaga
uma estrela longínqua morta há milénios mas
cuja luz
ainda
até ao fim de parágrafo de um ser humano
3.12.15
quadrado #8: telefone
lavo as mãos com a água mais fria que existe; és uma imagem distante,
um rio de sangue menstrual em cima da cabeça de uma boneca, no chão
de uma mata, tudo misturado com folhas e terra. vejo as tuas pernas
despidas ao longe, de trás, nas fotografias. vejo um cancro de luz
a destruir-me o tórax a partir de dentro, tenho fotografias com que o
atestar. a preto e branco.
lavo a fruta com a água mais fria que existe, levo-ta à boca com os dedos
mais gastos que tenho, podemos comungar isto, pelo menos: a menstruação
nas fotografias, os frutos, os cabelos, as pernas, as nádegas.
enxaguo as palavras no gelo da água; conto-as, estendo-as ao sol, seco-as
e só depois tas entrego, deito-as no teu colo esperando que importem,
que tudo isto sirva um desígnio, um propósito.
caminho no chão onde fotografaste a cabeça de uma boneca sobre as folhas,
ando sobre a memória do sangue menstrual, espero que alguma
estrada me leve até onde estejas; gasto todo o tabaco antes do tempo,
o tempo, o tabaco
deviam ser gastos onde as tuas mãos lavadas levassem à boca um copo
de leite sem lactose.
1.12.15
when the devil calls I'm gonna ride that train
quatro do onze, dezoito do onze, dezoito anos, dezoito buracos num
jogo de golfe, dois homens a ler poemas do William Carlos
Williams em voz alta, bêbados, que a poesia é para bêbados.
dezoito copos de aguardente, dezoito copos de bebedeira,
nenhum fígado.
10.11.15
lama
em nenhuma margem
de nenhum rio
escrevi palavras
como fiz nas margens
dos livros
em nenhuma margem
de algum mar
20.10.15
pá(t)ria
o meu país é uma geração de casas
a cheirar a aranhas, a cheirar a veneno.
o meu país são bêbados a pedir cigarros, putos
romenos a pedir esmola para não
levarem porrada dos pais. o meu
país são pessoas a falar alto nos cafés
sobre motores e mulheres-coisas,
o meu país são trocos nos bolsos
para copos de tinto rasca, são
carros parados nos passeios à
frente das seguradoras, são
velhos a apanhar sol como se fossem
cães, são
botins de vindimar deixados
à entrada das casas. o meu país é estar-se
deprimido porque nos deixaram sozinhos mas
não se poder porque o mais importante
é a televisão e a economia e as contas,
a aritmética completamente deslocada
num lugar onde se deviam dormir sestas e beber bagaço
à noite, um lugar de estranhos abraçados
uns aos outros nas adegas, nos salões
de baile arruinados das casas senhoriais
provincianas. o meu país é um pão
com chouriço a arder num forno de pedra,
o meu país são mulheres que se afastam sobre o mar,
o meu país é um país de esperas,
um país que anela freudiano por uma
salvação escatológica saindo da neblina.
o meu país são bichos cheios de pus e matemática e vozes.
o meu país é uma metáfora, é um
silogismo, é um poema cada década mais
decadente. o meu país é uma dor de ouvidos.
18.10.15
impromptu
não te esqueças de a devolver num prazo de, pelo
menos, três semanas (no máximo, três semanas e
meia), fica parado a observar os camiões e os carros
a levar materiais e pessoas para o outro lado do
mundo, evita dever dinheiro, evita o tabaco dos
outros. quando te chamarem pelo nome tenta
lembrar-te, ao certo, de qual é o teu nome, deixa
que te chamem princesa e sorri, envergonhado,
quando te derem dois beijos no rosto e uma das
outras mãos te descer pelas costas até às
nádegas. devolve o que te dão, regurgita o que
te dão, constrói uma casa para pássaros,
observa os camiões passando na rua, fazendo
estremecer as fundações das casas, à noite --
e também de dia, mas sobretudo à noite --,
recorta datas de dentro das agendas e alimenta
os teus animais com bocados de papel e insectos.
nunca te esqueças de devolver o que te deram.
12.10.15
black sheep
das coisas mais assustadoras é a anormalidade,
herbívoros silenciosos invadindo as cidades
rente à noite,
comendo carne nos becos e nas arcadas
e junto aos caixotes do lixo.
3.10.15
geriatria
as velhas
são dentes
a ranger
nas capelas
rezando o
santo terço
do rosário
batendo os
dentes o
queixo com
um ritmo
um sincronismo
intangível de
solidão e
de amor
e de
doença não
há como
não amar
as velhas
dantes novas
sem a
preocupação da
diabetes com
o fogo
na cona
de saia
arregaçada nos
celeiros sem
pensar na
melodia solitária
muitas décadas
depois às
dezoito e
trinta nas
capelas a
pedir ao
cristo saúde
dinheiro melhorias
várias ou
a não
pedir nada
a estar
ali apenas
porque sim
26.9.15
20.9.15
12.9.15
maría
ovelhas após um parto e ainda encontrar nelas a beleza decadente
que a poesia exige.
procuro amar-te em todas as mulheres que conheço mas as minhas mãos
nunca te encontram. as minhas mãos limpas de sangue animal
nunca te serviriam.